(há)versões

Alexis Kellermann
Jul 24, 2017 · 3 min read

Era uma vez um bando de Etês. Eram poucos e pequenos, habitando um lindo e também pequeno planeta. Eles tinham algo muito especial. Uma espécie de magia natural, que os conectava par a par, uns com os outros e assim todos como um. Cada um deles tinha em torno de si um véu de névoa, quase impalpável, quase invisível, quase etéreo e quase morno, que se acendia e se expandia e se projetava e se misturava com o véu alheio, e vice-versa, na(s) presença(s) um(s) do(s) outro(s). Essa conexão era muito natural muito essencial muito prazerosa muito valiosa para eles. Quanto mais se misturavam os mesmos pares de véus, com o tempo, aquela conexão ficava mais volumosa mais gostosa mais densa mais intensa. Todos tinham essa magia, mas com diferentes capacidades e peculiaridades no modo como o véu se propagava se entrosava e interagia ou atraia outros véus. O ápice dessa capacidade de atração se dava no momento do nascimento, talvez pela quantidade de magia envolvida no acasalamento. Como confiavam e se guiavam muito por essa magia, eles quase não precisavam conversar, até porque cada um falava com um grunhido peculiar, havendo diferentes dialetos e diversas ambigualidades na fala, o que muitas vezes mais os confundia e atrapalhava do que os ajudava. E assim viviam felizes e pacificamente, ocupando quase homogeneamente seu pequeno planeta. Um dia, não se sabe bem porque, nem como, nem onde, nem quem, nem quantos, resolveram expressar sua gratidão em relação à magia que possuíam. E assim alguns falaram de como viam e interpretavam e sentiam e, principalmente, como nomeavam a tal magia. E quase concordaram em quase tudo, mas começaram a salientar as pequenas diferenças, reforçando que provavelmente o nome certo de chama-la era aquele que eles utilizavam. E assim foram formando-se grupos, de acordo com a proximidade de nomes e interpretações e significados que atribuíam àquela magia. E foram se relacionando cada vez mais com os membros do seu grupo, e começaram a ter uma certa ligeira pequena quase aversão pelos grupos alheios, afinal, como eles não conseguem entender o que é tão claro pra nós, não é mesmo? E assim, começou a se formar um fenômeno nunca antes visto naquele pequeno e belo planeta. Os etês, que antes se espalhavam e ocupavam homogênea e dinamicamente o mundinho, agora se aglutinavam em grupos, com um certo distanciamento geográfico entre estes grupos, o que resultou em certas zonas sem magia entre os grupos. E nessas zonas sem magia outro tipo de névoa começou a se formar, muito parecida, porém muito mais densa do que a da magia dos etês. E essa névoa foi se aglutinando cada vez mais nas zonas sem magia, se adensando e se fundindo em uma espécie de estrutura nebulosa contínua, vertical e perpendicular ao chão, que ia se empilhando e engrossando. Tal fenômeno fazia com que fosse difícil para os grupos se verem e se aproximarem, pois era difícil pra eles enxergar e atravessar a névoa. E assim todos e cada um dos grupos-que-discordam-em-relação-ao-nome-da-magia se reuniram para decidir como chamar a tal nova neblina. Como estavam ansiosos para voltar aos seus lugares e ficar entre os seus, saindo daquele apuro, debateram rapidamente e concordaram em simplesmente chamar de muro. Hoje em dia, alguns pares se formam entre grupos e entre muros, mas são poucos. Pra eles a palavra também é consenso: loucos.

Alexis Kellermann

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Palavras são como peças de um quebra cabeça: prefiro bagunça-las.

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