Meritocracia

Era madrugada, incontestável como a crença . não tinha noção das horas, não que isso fizesse diferença. o máximo que o horário tinha de importância estava relacionado com o dispositivo de contagem de vida: se conseguisse um relógio em sua vigilância, poderia vendê-lo e comprar alguma comida. rrróóóóounnn. como que despertado pela reflexão, o estômago fez seu protesto, ávido por ocupação. o barulho foi alto, mas nada comparado à dor que o acompanharia. mordendo o lábio, se encolheu, tentando se distrair da tortura que o suco gástrico lhe infligia. a única sensação que aplacava a fome era o frio que cortava feito navalha, atravessando os trapos que seriam sua futura mortalha. não sabia, mas em poucas horas a morte lhe daria a atenção que não teve em sua curta existência. ou talvez soubesse. não num nível consciente, mas numa espécie de instinto de desistência: como um animal moribundo, que se afasta da matilha pra se aproximar do óbito, já havia ajeitado pela última vez os papelões que separavam sua carne magra do chão inóspito. seu corpo já assumira a posição fetal fatal na qual seria encontrado, muito mais tarde, pelo tropeço de um carteiro desavisado. mais uma onda de dor vinda do estômago vazio. afogou-se na inconsciência, infanto-senil. acordou horas depois, com a alvorada lhe afagando a face. os raios do sol caem em seu corpo, mas sua chama não renasce. tremia, sofria. não veria o fim do dia, pois seu próprio fim logo eclodiria. estava ficando sem forças, sem tempo, sem horas. passeando com suas certezas, passaram duas senhoras. tentou solicitar auxílio, mas o som que saiu de si foi sentenciado ao exílio. talvez se fosse mais educado, talvez se o ensinassem a falar com licença, por favor, obrigado. talvez, mas não fora desta vez. a única educação que seu pai pode lhe dar foi uma surra alcoolizada antes de lhe abandonar. de sua mãe herdara apenas o olhar vazio, mirando o nada, e o cachimbo que tirara de sua mão rígida e gelada. mais um transeunte. investiu. “tem uma moeda, tio?” “bah amizade, to sem nada”. com nada então ficara. estas curtas ondas sonoras tinha sido o diálogo mais longo das últimas horas. “amizade” foi o mais perto de carinho recebido nestes dias. dias? anos, oras. ali perto, crianças da sua idade aprendiam as contas que no futuro garantiriam o sucesso na seleção de vestibular. enquanto isso seu organismo contava os últimos aminoácidos, na tentativa vã de não falhar, de ser sucedido na seleção natural. “menos apto segundo darwinista social”. infante excluído, infância escanteada, criança esquecida, criação ignorada. sem nome, sem sexo, sem cor, sem amigo, com fome, complexo, com dor, consigo. na reunião silenciosa do sindicato dos órgãos, a decisão fora tomada. já não dava para continuar vivendo de nada. um torpor anestesiou-lhe a mente, no rosto correu uma lágrima. sem forças, demitiu-se o já cansado diafragma. inesperadamente, sorriu. já não sentia mais o frio. sorriu, sufocou, sucumbiu. assim se foi mais uma cria do brasil. em seu velório, inexistente e solitário, as frases de consolo foram ouvidas no canto de um canário. em seu túmulo aberto, despretensioso e ocasional, o epitáfio são palavras pixadas no muro do hospital: “o eco infinito do grito que foi reprimido”. se soubesse ler, teria achado bonito. em seu ultimo momento, naquele não-tempo fora da jurisdição do sofrimento, um pensamento final lhe ocorreu com naturalidade: “talvez agora seja minha vez de conhecer a tal felicidade..”