Ele(a) se formou, palmas!

A academia pode até tentar, mas minha negritude ela não tira. Sou negro da cabeça aos pés, negro no falar, negro na produção de conhecimento, negro nas posições políticas que adoto. Negro nas músicas que ouço — funk, rap, Blues, soul, samba, pagode — feitos pelos meus, para os meus, exaltando a vida e a produção cultural dos meus. 
Esse discurso de diferenciação intra negros, por conta de um diploma de ensino superior não me engendra. 
O policial que genocida os meus nas esquinas da vida, não tem acesso ao meu lattes. O segurança da loja que nos perseguem, na ânsia de proteger o patrimônio dela, achando que nós iremos roubá-la, não tem acesso ao meu lindo Coeficiente de rendimento — CR — 8,64. O que eles têm acesso? — a nossa cor — e aos esteriótipos associados à ela.
Ter sido confundido como faxineiro da Universidade, na sala de estudos da mesma, mesmo não estando com o uniforme dos mesmos, ou roupa que se assemelhasse, sempre me evoca aquilo que a Universidade tenta apagar da mente do negro: o papel específico que cumprimos nessa sociedade — esse segundo planismo — como diz Lélia Gonzales: esse constante estar na lata do lixo da sociedade brasileira. 
Cansado de ver os meus se deixando levar pelo envaidecimento que a academia nos proporciona, a possibilidade de sermos taxados como “negros diferenciados”, que nada mais são do que aqueles que se envaideceram tanto por esse discurso, da diferença por serem estudiosos, intelectuais, ao ponto de caírem na falácia de que somos reconhecidos enquanto negros acadêmicos: não somos.
Na lógica deles, somos os incivilizados do século XIX, aqueles que precisaram beber da água da fonte do eurocentrismo, a fim de se embranquecerem, assim, prontos para se encaixarem no modelo ideal que a república que estava se formando necessitava: o homem branco europeu — e sua aptidão ao trabalho, seu civilismo, sua pompa revolucionária — narrativa construída que até hoje ecoa dentro das universidades e escolas desse país — Nós? Quem somos? Os vadios, vagabundos, maconheiros, “os sem futuros” — aqueles que não querem nada, não é professor? 
A sua linda Universidade, digo as do sudeste em particular, oferecem-te um diploma, em troca do seu silêncio no conquanto às opressões que enfrentamos. De silêncio, a grade de História da UFRRJ entende, e como entende. De silêncio em silêncio, Dandara não é citada nas escolas, Aqualtune? Quem é essa? Pois é — também apagada — Maninha Xukuru-Kariri? — dizimada novamente. E assim seguimos, apontando para um eixo geográfico somente, acomodados em elencarmos que a Europa é a rainha do conhecimento. Tá pronto o professor(a) do ensino superior e de base da educação brasileira. Palmas, ele se formou!

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