BOCS

Alex Maniezo
Sep 14, 2018 · 7 min read

O vapor envolve banheiro. Lá fora a noite está em outro tempo verbal, pálida e distante. O homem se limpa com sabonete gasto que escapa das mãos. Não acordou firme hoje, não viveu bem. Tudo é poroso, aerado.

Mesmo assim não se engane, não é gripe. A moleza tem um outro gosto, como uma sensação doente, o peso de um banho em gravidade negativa. A água, para subir, não precisa de tamanha temperatura; basta um empurrão e tudo…

O couro cabeludo esta vermelho mesmo sem ninguém olhar, o basculante fechado sua e seu celular, preso entre a alavanca do da janela e a parede, emite um som incompreensível. Alguma música abafada pelo barulho do chuveiro, talvez o fundo do mar chamando. A água nunca antes vista, ainda que esteja lá, sufocada por um travesseiro de hospital, por uma palavra não dita antes da partida, o trem que, quase fechado, força a resistência. O chuveiro, o chuveiro a força

E então o formigamento na ponta dos dedos, marca da primeira coisa alheia. Todas as sensações que seu cérebro consegue computar são suas, obvio. Ou na verdade não. “Ah, mas não isso! ”. Na verdade, era como se um segundo corpo surgisse daqueles dedos, embaixo da unha, uma agonia que logo transmuta suave, confortável e elétrica, viajando em falange, pele e músculo. Os pés no piso antiaderente do box espirram água gelada no vidro ao seu lado. Ele coça, a força se torna um adversário, pequenas pedras. Machucam, o chuveiro a força. Sentindo gás em sua volta enquanto o mundo desperta, a si e a aquele outro, ele acorda. A água.

Formam-se extremos: os dedos superiores, insensíveis e totalmente confortáveis com sua situação, avançam em marcha lente pelos braços, a mira caindo ao dorso; O outro extremo é a realidade dos pés que tentam limpar algo não visível, raspando e raspando no chão cor de peixe. Esse animal recém fisgado luta, a água existe. Fria pelas paredes do Box ela age como o catalizador de um campo de sensações não quantificáveis. E ainda assim eram, como se a pele em força abrisse os braços, ampla, para sentir qualquer frio real.

Para cima e para baixo se atropelam, uma na nuca da outra sem pedir licença, mas, na mesma medida de grosseria, não criam nenhuma barbárie. Um projetil a frente, carne, enquanto seu corpo se persegue, sem entender quem era o pastor ou o discipulado.

Ao mesmo tempo fuga e tormenta, dualidades que enfrentam mãos e pés, como um próprio cavalo pantomímico. Então apita sua mente o apito dos cachorros e o corpo fecha em uma jaula elíptica, apagando as luzes, as estrelas lá de fora, a névoa ali dentro. Nevoa não, ou seria nevoa? Ele já não sabe, como nunca realmente soube, fingindo. Onde está?

É tarde, dia. A manhã precoce tem os porquês da nevoa, que assenta por sobre as arvores enquanto ele se lava para o trabalho. Não, noite, em casa, não tem trabalho, só faz… o que está fazendo? Faça o que mandam! O que mandava sua higiene displicente. Não, merda de chuva. Abaixo do chuveiro frio, toma banho em pulos enquanto sua mãe grita com seus filhos, os irmãos lá de fora. “ Me deixem em paz um minuto! ” Ela teve de gritar com sua outra voz, a mente.

Os olhos viram e ainda vem, rodando sem caixas: Um banheiro ínfimo e um cano. Ele mesmo era somente um cano, com pés cabeça de gente. Volta a si, põe a mão no vidro do box, os dedos espalhados com a música inaudível e o noturno sem sangue e sem cor[AM1] , os olhos enxergando um céu, um eu.

Existe calma no todo, seus órgãos internos e na sua circulação sanguínea invisível, vazando. Sua mãe e as crianças lá fora correm acima do vermelho, atrás dos peixes de terra, A mais novinha não anda nem fala, em uma cadeira de rodas improvisada que bate terra empedrada, sem encanamentos. É uma voz estridente a matriarca dos todos.

Espera! Seus relatórios chegaram, pense nos seus relatórios. Ao seu lado uma banheira quadrada com almofadas, é cristalina, sem arestas sujas ou pontas soltas. O banheiro tem toalhas quentes e frias, enquanto, nas paredes, painéis de led sensíveis ao toque lhe informavam a latência do wifi e os feeds de notícia que pode acessar do box via rádio, TV ou texto, visualizando com clareza na parede a sua frente. Mas ali dentro do peito somente a merda dos relatórios, realmente um ingrato esse, ainda que pense ter razão. Pressa, muita pressa!

Desculpe por julgar, talvez ele até a tenha…

(beat)

A elipse fecha e ele sente o peso da barriga pressionando as costas, a sensação da pele esticada e um inchaço que a existência é, seu próprio mundo remontado para virar outra coisa, para virar um mundo em si só. Seu chuveiro velho onde agua nem corre; nem você, nem ninguém. Pinga em sua cabeça uma ideia, mas é tão fraca que não a limpa. A mão encontra o plástico do box e segura o ponto onde encouraça o mal-estar. “Pelo menos de manicure estou bem”. Um olhar para as unhas brilhantes, compridas e limpas, a forma mais bela que conseguia imaginar queratina. Uma ideia dissipada em dedos carcomidos.

Seu mundo treme. Bombas pela manhã e daqui a pouco, de tarde. Uma poliniza o ar, aproveita os ventos do meio dia para que… para que algo não seja estéril antes da hora. A outra, de tarde, não sabe para que, mas não toma banho essas horas. Espuma cai dos cabelos curtos e ela tenta. O mais fundo que pode, até que o cheiro de amônia, tremulo, tome o corpo que a radiação move. Tão nova para receber tanta informação, coisas demais para alguém de somente 2 horas. Mas saiba, o incomodo dura para sempre, mesmo quando chegas lá pelos seus 10 dias (quem dera, com sorte).

Um momento. (beat). A elipse se tornar corda, o chuveiro afunda na parede, um apoio. O ar que puxa, queimando garganta e nariz, se torna o supressor da atmosfera. Não, mais, muito mais, só não queria esse inferno e… tudo. Por que não ser prático? Olhe e espere e olhe e espere e olhe, nunca fale nada e…espere

Não pense, a noite (ou o dia, será o dia mesmo? Onde estamos?) não queria mais pensar muito. E era impossível não o fazer, portanto a vida de mais, a morte demais, a selva de mais, cidade de mais, são água, onde seus 70% se sufocam. Ao passo que são nada, pouquíssimo, pouquíssimo e palavra em si já não cabe pois ele é vácuo, não tem mais controle e quer. Possui o controle de suas ações e prova, mesmo sem possuir habilidade para mostrar aos outros e a si mesmo. A fibra de nylon em volta de seu pescoço aperta e a cabeça, formigando nas têmporas, como duas mãos lhe colocando no colo, o lembra das roupas que nunca recolheu do varal. Esta corda em seu pomo de adão o engole, engole uma refeição por vez, destitui todas, passando aquela bola para cima e para baixo. Pensa na sorte de ser pequeno, e depois em mais nada. Resta aguardar o cérebro, que toma um segundo controle de consciência incessível e luta sem saber que perde, sem saber que quis.

Um chute forte contra o vidro verde, laminado e antisséptico daquele banheiro azul, todo ele.

“Água! Água, olha! Meu dono, banho, água, excelente, excelente! Mais água, quanta água! Eita, cadê ele? Espuma, espuma! Cadê? Eu ouvi um gato? Gato! Atrás daquela porta. Volta! Volta aqui, gato, gato! ” Não consegue pegar, está com a porta sanfonada em frente, um cordão apertado na barriga, pressionando o peito, uma destreza digna de um atleta, se não fosse tão comum quanto a água daquele balde gasto.

Não ouve, não vê, nem sabe de sua própria. Em constante movimento se junta, simplesmente, como se deve ir: para voltar. Também como é devido. Cai inconsciente, se debatendo, lutando contra ele sem saber com que proposito. Espirrou para todos os lados, se divide, multiplica, vibra e rebate no vidro. Se torna o resto, escoa pelo ralo, se mistura aos pelos, tornou-se e virou, caindo lá de cima, ao mesmo tempo, milhões de anos depois, após o fim de tudo, bem depois do começo.

“Respire fundo”, e puxou a nuca para baixo, a outra mão ainda apoiada no box; desliza cautelosamente na expectativa que o corpo se guie suficientemente bem até encontrar a parede atrás, quando cai de uma vez. Gotas.

Com a cabeça entre os joelhos vive dentro e fora de si várias vezes, na espera que o sangue volte. A água corre pelos cabelos e por isso lembra “eu preciso desligar essa porcaria”. Odiavam-se na mesma intensidade ou aquele pelo menos lhe odiava tanto quanto ele odiava a si mesmo? Depois do agora nunca obteve resposta. Pouco a pouco os vapores e a noite voltam e se mexer como o mundo ele se mexe: 24 horas por dia, 7 dias por semana, ou de qualquer outra forma em que se mede tempo.

As coisas pararam de vibrar e o apito se tornou outra vez música; ele já nem se sentia mais um cão e agora que o fluxo de água havia morrido, a única sensação que predominava era o frio que o vidro mantinha entre ele e os azulejos brancos. Alguém foi ali consertar a resistência três semanas depois. “Não tenho mesmo jeito com essas coisas”

Levantou e, ainda tonto, abriu a porta de correr do box; se enxugou de qualquer jeito, não pôs camiseta apesar do alerta contra resfriado em sua cabeça. Foi para a cozinha pegar algo de sal, que pôs na boca como um bicho.

Viveu até os 97 com problemas respiratórios. Tomava banho todos os dias e não teve mais nenhum mal-estar, nem significado a mais.