Deplorável Culpa Católica
Você detesta este lugar. Você chega em casa, carregado de compras, recibos de contas e cansaço. Olha pra sala e estão lá imóveis o varal, com as roupas penduradas, assim como estavam ontem; e estão os filhos dela, estão afundados em poltronas que você trouxe. Principalmente aquela poltrona que você odeia ver no meio da sala por capricho e arrojo qualquer de um dos filhos dela. O que aconteceu com aquela cadeira que você trouxera? Curvou o arco e se quebrou. Em duas.
Nauseado, você evita passar muito tempo na sala de estar, pois detesta estar. Ainda mais com estas pessoas que nem sangue de seu sangue são. Mas talvez elas queiram sugá-lo como quem trás refrigerante do mercado. Procurando se abrigar você corre para o quarto. É lá que você se esconde. É lá que você relaxa os tencionados músculos de angustia e dor e desce das costas uma pedra tão titânica que nem data tempo. Uma angustia mais antiga que a tua noção de ser. Mas você não sabe disso. Não sabe que secretamente deseja o peso do mundo pois se acovarda diante da visão da cama bagunçada.
A cama ainda está bagunçada, como odeia ver. O que ela andou fazendo o dia inteiro? Sonhando? Mulher tola! Não sabe que quem sonha acordado tece o próprio horror… o que resta pra ela é um véu de ignorância, derrotismo e migalhas que os sonhos dos outros dão. E você lembrou de trazer o pão. Mas esqueceu a dor. Esqueceu a dor na mesa do bar. Tomou o elixir do sábio-tolo e esqueceu a dor na mesa do bar. Mas agora é tarde, corre, ajeita tuas coisas e vá deitar pois amanhã sem falta a dor vem lhe acordar. Pontualmente por volta das 6 badalas do remorso.
E deixando esse inverno frio de café quente, vai buscar a tua desculpa e sina. Quando voltar não se esqueça do pão.