Deixem o jornalismo morrer em paz

Antes de entrar em qualquer discussão sobre o jornalismo, costumo sugerir que a pendenga comece com uma pergunta: defina jornalismo. Arrisco a minha, que é bem simplória e genérica. Engenharia é construir, direito é defender, medicina é salvar e jornalismo é informar. Cabeleireiros, donas de casa, pipoqueiros, padres e estudantes ainda não podem construir pontes, defender condenados, nem operar corações. Mas podem informar. Pode ser muito duro admitir, mas muitas das coisas que eram feitas só por jornalistas anos atrás, hoje podem ser feitas por qualquer pessoa e até por robôs, em alguns casos com vantagens. Simples assim. É a vida. Alguns chamam isso de fim do jornalismo.

Discutir o tal fim do jornalismo é tão interessante quanto falar do aquecimento global: o negócio parece inevitável, mas há sempre pouca certeza e muita emoção num papo de muitas variáveis e poucos fatos. Aliás, só mesmo um jornalista, com sua tendência natural ao drama e sofreguidão, para se envolver nessa prosa. Nunca vi médicos alardeando o fim da medicina, ou advogados falando no dia do "direito final". E olha que nesses dois campos, direito e medicina, a tecnologia também obrigou um intenso trabalho de adaptação. Jornalismo, medicina, engenharia e direito acabam a toda hora e recomeçam com a próxima tecnologia. Mas jornalista é um bicho diferente. Aqui no Medium, no Nieman Lab, na revista da Columbia, em ensaios e textos por blogs e publicações mundo afora, quase todo dia eu trombo com algum tipo de discussão sobre…. O FIM DO JORNALISMO.

Editora Abril: velhos tempos

Assim como as carroças, provavelmente o jornalismo, em um sentido amplo, sobreviverá. Mas, neste momento, a indústria está diminuindo, paga menos e gera cada vez menos empregos. Cinco anos atrás a editora Abril em São Paulo era uma espécie de parque temático do mundo das notícias, em prédio de 30 andares, todo ocupado por redações. Dentro do complexo havia uma academia de ginástica, salão de beleza e restaurantes. Por lá circulavam alguns dos mais respeitado profissionais da imprensa brasileira, poderosos apareciam para dar entrevistas e faze média, trombavam com designers descolados e modelos da Playboy. Hoje restam poucos andares ocupados, o restaurante, a academia e o salão foram fechados. O prédio está quase vazio, revistas foram fechadas, jornalistas foram para a rua. O perigo é real.

A história da Abril é emblemática, mas não é a única. O fato é que não há vagas para a mão de obra que está, digamos, vagando por aí. Parte de uma geração de jornalistas que viveu o auge da profissão entre os anos 70 e começo de 2.000 agora enfrenta a realidade do pão de mel: transformar a cozinha de casa em padaria para garantir a renda na vida pós bilhete azul — nome dado no passado ao aviso de demissão. Quem não vai tão longe, monta uma assessoria de imprensa. Mas o problema continua: se não tem imprensa, quem mais precisa de assessores? A tecnologia, como todos sabem, nos despejou.

Dizem que existe uma solução. Segundo uma leva de consultores e otimistas profissionais, nós, jornalistas, deveríamos nos reinventar para sobreviver aos novos tempos. Reinventar. Linda palavra. Muitos deles dizem que é uma questão de querer, de encarar a nova realidade, de força de vontade!. Falam que há espaço para todos e que a tecnologia que dizimou jornais e revistas pelo mundo só amplia nossas possibilidades. Será? Acho que esse blá-blá-blá é até um bom antidepressivo e ajuda a vender livros, mas…. a conta não fecha.

Frequentemente eu leio considerações a respeito de uma suposta resistência por parte dos jornalistas para abraçar essa tal tecnologia, ou para se "reinventar". A culpa, há quem diga, é do jornalista! Ora, na minha carreira eu notei que a maior parte das pessoas não pode se entregar a tais devaneios filosóficos quando têm bocas para alimentar e aluguel para pagar. A coisa, acho eu, é mais objetiva. Comecei a trabalhar na Folha de São Paulo em 1991. Computadores disputavam espaço com máquinas de escrever em uma batalha cujo final todos conseguiam antever já naquela época. O jornal vinha passando por uma grande reestruturação que acabou na demissão de revisores, jornalistas “da antiga”, o pessoal do paste up e outras funções que passaram a ser feitas com mais economia e eficiência por máquinas.

Todos os homens do presidente

Não lembro de ver ataques de saudosismo por parte dos profissionais que escapavam dos facões da demissão. Nunca vi um só gritando: "eu quero a minha Olivetti" — que para quem não sabe é uma máquina de escrever. Quem conseguia ficar agarrava-se à oportunidade e tratava de aprender a lidar com computadores e o que quer que os ajudasse a segurar o emprego. As pessoas reclamavam porque não encontravam quem as contratasse, ou porque não encontravam uma chance para reverter suas antigas habilidades em outras mais novas e úteis, ou seja, fazer a tal reinvenção.

Com diz a cantiga, o lambari morreu porque o ribeirão secou.


Infelizmente, seres humanos, assim como máquinas, também ficam ultrapassados. Um jornalista de 40 e poucos anos conheceu a internet depois de sair da faculdade, passou 20 anos em redações à moda antiga, assimilando todos os seus vícios e virtudes. Quais são as chances desse sujeito embarcar de uma hora para outra em uma carreira tecnológica? Conseguiria sobreviver no ambiente competitivo de jovens de 20 e poucos anos no Google, no Facebook? Sempre é possível, dirá um guru de auto-ajuda. Aliás, tudo sempre é possível. Mas na prática, a gente sabe que o caminho da reinvenção é difícil.

O fim do jornalismo (como nós o conhecemos) é um caminho sem volta porque a sociedade está ganhando com isso. Uma das primeiras grandes missões que recebi no jornalismo foi ir até a prefeitura, onde se anunciaria o valor da nova tarifa de ônibus. Pensa isso hoje, no trânsito de São Paulo! Imagina só o tamanho que os jornais precisariam ter para anunciar todas as coisas que as prefeituras e governos precisam dizer. Quanto custava para mandar o repórter até lá, o tempo até a notícia chegar aos interessados…

Resolveu-se muita coisa que antes era feita por jornalistas com email, sites, blogs e redes sociais. Estou nesse negócio faz tanto tempo que convivi com um mito de que lugar do jornalista é rua. Para quê? Levar um tiro? Podemos deixar esse trabalho para os caras da CNN, que têm suporte adequado para dar conta do recado. Hoje é muito mais fácil (e útil) procurar notícias no Google do que na rua. E o tal do jornalismo investigativo: amigo, em democracias civilizadas, quem investiga são as instituições, a polícia, o ministério público… Jornalista conta histórias e espera os documentos e as denúncias chegarem em um pen drive. Nos dias de hoje, provavelmente Bob Woodward e Carl Bernstein receberiam emails criptografados e não precisariam fazer encontros em garagens.

O jornalismo, aquele jornalismo, já cumpriu seu papel com glórias. Hoje o que temos é uma outras coisa. Com o mesmo nome. E, talvez, melhor.