Eu não gosto de ser tratado como gado
Viver em São Paulo é para os fortes. Eu costumava ter orgulho de ser um sobrevivente entre motoboys aloprados, flanelinhas, buracos, multas e taxas de criminalidade na ionosfera. Hoje acho tudo isso um saco. A novidade para torrar nossa paciência é a redução do limite de velocidade nas marginais. Segundo as faixas penduradas pela prefeitura nas pontes, temos 1200 acidentes com vítimas todos os anos nas marginais. A esculhambação começa pela forma escolhida para "informar" o cidadão: umas faixas sem vergonha, penduradas de qualquer jeito. Depois vem o argumento, que é de uma candura comovente. Como temos muitos acidentes, precisamos reduzir a velocidade. Pronto! Se isso fizer algum sentido, o prefeito pode se preparar para levar sua ideia adiante e candidatar-se ao prêmio Nobel da Paz. O Brasil é recordista mundial em vítimas de acidentes fatais nas estradas, coisa de 50 mil mortos por ano. Vamos baixar o tacão, 50 km/h na Dutra e siga em, paz! Tá resolvido.
Essa história de redução de velocidade parece mais uma tentativa de mostrar que há vida em um governo que sofre de depressão. Como as ciclofaixas, nossos desertos vermelhos. Ou a história de afagar grafiteiros e presentear o papa como um CD dos Racionais MC. Absolutamente nada contra, achei o presente até inspirado e imaginar que tem alguém que se preocupa com a cor dos nossos muros não deixa de ser uma luz. Mas alguém precisa acordar o prefeito para os grandes desafios da cidade. Chega de brincar de ser moderninho. Não dá para passar quatro anos esquentando cadeira para ser lembrado por tão pouco. Já enfrentamos Jânio Quadros, Erundina e sua guerra de tudo contra todos, a devastadora dupla Maluf-Pitta… Nenhuma cidade aguenta viver tanto tempo sob esse ataque pesado. Uma chuva de V1s e V2s não fariam tanto estrago.
Eu não acredito em soluções fáceis para São Paulo. Gosto da ideia das ciclofaixas, mas não as vejo como solução. Disponho-me a andar bem na linha nas marginais e respeitar o limite decidido, mas também não acredito que vamos ganhar muita coisa com isso. São Paulo precisa de um gestor valente como são ferozes os seus desafios. Alguém que inspire mudanças e que tenha a capacidade de cercar-se de gente boa. Hoje a cidade é governada por um sujeito que disse mais de uma vez que não está onde gostaria, que insinua estar fazendo um sacrifício por nós. Ora, ora, alguém que pediu para ser eleito deveria medir mais suas palavras até por consideração aos crentes.
Não tenho muita esperança. Acho que assim como eu, muita gente está sentindo só, de saco cheio, sem forças para lutar e debater. Hoje eu li uma entrevista confusa do presidente da OAB de São Paulo sobre a redução de velocidade nas marginais. É melancólico constatar que um advogado desengonçado é um dos grandes, e únicos, expoentes desse assunto. Nossa querida OAB já escolheu melhor suas batalhas. As questões de nossa cidade já empolgaram mentes mais brilhantes.
Mas a vida continua. Em São Paulo inventam essas coisas como se fôssemos gado que precisa ser tocado entre cercas para o curral. Jogo aqui minha garrafa no oceano. Eu não gosto de ser tratado como gado.