Razões para entrar na polêmica da Barbie gorda.

Esta semana a Mattel colocará para vender em seu site três novas versões, uma gordinha, uma baixinha e uma mais alta do que a matriarca.

Segundo uma reportagem da Time, a mudança foi motivada por quedas abruptas e constantes das receitas geradas pela boneca. Agora, uma das maiores fabricantes de brinquedos do mundo está apostando em uma causa para levantar as vendas e para isso vai enfrentar as culturas e as reações de clientes em 50 países diferentes. Pronto, bastaria isso para tornar a história interessante e obrigatória em rodas de boteco.

Barbie é coisa séria. A marca fatura um bilhão de dólares por ano em todo mundo. A boneca magrela e peituda manteve o shape por quase 60 anos, sob chuvas e trovoadas provocadas por feministas, psicólogos infantis e até governos que não tinham mais o que fazer.

O marketing é sempre mais interessante quando vende produtos acoplados a ideias.

Mas a Barbie é um fenômeno bem ao gosto americano. Lá eles tem sua casa mais em ordem e podem dedicar muito tempo para questões tidas como secundárias em países onde ainda se faz boneca com sabugo de milho — não por folclore, diga-se, mas por precisão. Os gringos não precisam se engajar em discussões culpadas sobre a fila dos hospitais, podem discutir o sexo dos anjos sem culpa. Por essa razão, polêmicas que formam grandes tempestades por lá chegam aqui apenas como marolinhas. Mesmo assim, a conversa não deixa de ser altamente educativa até aqui para nós brazucos-pobres-culpados-esperando-na-fila-do-SUS.

Uma palhinha: então chegou o aniversário de sua sobrinha. Ela tem 10 anos, um pouco acima do peso como 60% da população brasileira. A família, que também sobra na balança, entende o assunto como uma questão delicada. Ana Maria na lancheira, Coca-Cola liberada….É duro fazer refeições de brócolis e arroz integral. Já viu o preço disso? É coisa de rico. Enfim, as dobrinhas de sua sobrinha são uma questão delicada na família. Os pais não sabem como resolver. Viram o Dráuzio Varella falar da importância de manter o peso em ordem. Estão preocupados. Já perceberam que a sociedade começou a pegar pesado com isso, botando carimbos na testa do IMC fora da curva.

Ouvi um cretino dizer que gongou um candidato a uma vaga de emprego porque o sujeito era gordo. Disse com satisfação. Falou que manter o peso é obrigação de um profissional bem sucedido. Pode isso?

Quando só existiam as Barbies peitudas, o problema estava resolvido. Mas e agora? Você presenteia sua sobrinha com a Barbie gordinha, ou com a magrela? A gordinha é legal, mas no fundo não é a imagem que a família gostaria de ver reproduzida. E a magrela….Putz, agora pode parecer até provocação, hipocrisia. Mas afinal, o que é “gordo”? O que isso quer dizer? É questão de saúde, só IMC?. É visual… Este assunto está na mesa de todo mundo, mas costuma ficar cuidadosamente escondido na propaganda e na TV. A Barbie é uma excelente oportunidade para falar dele. Corajosa essa Mattel.

A baixinha e a grandona
Lá nos EUA, a Mattel, que não brinca em serviço, já tem todas as respostas prontas e montou uma grande operação de comunicação para lidar com a polêmica que já está fazendo a alegria dos ativistas americanos. Do ponto de vista essencialmente profissional é de dar inveja. Que profissional de marketing e comunicação não gostaria de estar envolvido em uma polêmica planetária de um bilhão de dólares!

O resumo da ópera é o seguinte: sorte de quem pode fazer da Barbie gordinha a sua grande polêmica. Aqui não temos espaço para essas bobagens. Tem Lava Jato, Zika, Lama no Rio Doce, Impeachment… Não, perder tempo discutindo se é a gordinha ou a peituda é coisa de quem não tem a menor sensibilidade.

A obesidade, uma operação arriscada de marketing, consumidor infantil, publicidade infantil….Uma pena que tenhamos que passar a noite acordados pensando no Zika Vírus.