Só os estagiários podem salvar a comunicação do governo Temer

Os 26 ministros do presidente Michel Temer falam para 1,7 milhões de pessoas em suas redes sociais no Facebook, Twitter e YouTube, o que é bastante coisa em termos de alcance. Eles poderiam usar esse poder de fogo para falar dos projetos de suas pastas, ou até para defender as reformas do governo, mas não é nada disso o que se vê. Descobrimos que eles desenvolveram uma incrível habilidade para estar presentes diariamente nas redes sociais, mas bem longe de polêmicas e dos temas difíceis. Visitar as páginas de alguns dos políticos mais poderosos do país é um passeio pela irrelevância.

A Medialogue Digital fez uma longa pesquisa entre setembro de 2016 e janeiro de 2017 <pode ser obtida aqui> para entender com quem e sobre o que eles estão falando. Foram selecionados cinco assuntos entre os mais relevantes na pauta política do governo: a PEC do Teto, Reforma da Previdência, Novo Ensino Médio, Reforma Política e o pacote das 10 Medidas contra a Corrupção. Embora sejam temas que mexem com a vida de todos, apenas nove ministros falaram deles em suas redes sociais. No intervalo pesquisado, os ministros fizeram mais de 4 mil posts em suas contas no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube. No total, apenas 2% das postagens abordavam um dos cinco temas, uma contribuição irrisória levando-se em conta a importância dos temas.

Olhando ministro por ministro, as estatísticas ficam ainda piores. Apenas três, Mendonça Filho da Educação, Roberto Freire da Cultura e Moreira Franco da Secretaria-Geral da Presidência, foram responsáveis por 89% dos posts sobre os temas pesquisados, sendo que Mendonça Filho respondeu sozinho por 59%, falando essencialmente do Novo Ensino Médio, assunto de sua pasta. Sem as postagens do ministro da Educação, os cinco assuntos foram abordados apenas 40 vezes em mais de quatro meses. Um dos casos mais interessantes é o de Ronaldo Nogueira, ministro do Trabalho. Ele não realizou nenhuma postagem a respeito do projeto mais importante de sua pasta e um dos assuntos que mais interessa aos trabalhadores: a Reforma da Previdência. Marcos Pereira, ministro da Indústria e Comércio, foi o mais produtivo no período, com quase 120 postagens. Porém, só um post foi dedicado a um dos cinco temas mais relevantes, a PEC do Teto. Entre outras platitudes postadas em suas redes sociais, há uma foto em que ele aparece fazendo compras em um supermercado.

Mande chamar os estagiários — O presidente Temer tem uma pauta de reformas importantes e extremamente difíceis para explicar. Ninguém vai conseguir aprovar grandes mudanças no sistema de previdência, por exemplo, se as pessoas não conseguirem ver com clareza as vantagens que terão em troca dos esforços que precisarão fazer. Cuidar da comunicação é fundamental. Todos os países que foram bem sucedidos nessas empreitadas sabem disso. Por essa razão fica muito mais difícil entender o descaso do governo e de seus ministros com as redes sociais. Ainda não entenderam? Entenderam mas não ligam? Qual seria a explicação?

Pode parecer novidade para muita gente em Brasília, mas a world wide web funciona há quase 40 anos. Já colecionamos uma infinidade de bons exemplos do uso das redes sociais nas grandes discussões de interesse público, em todo mundo. Com muita boa vontade, pode-se até relevar a falta de intimidade oficial com a internet porque Temer e quase todos os seus ministros são políticos da velha guarda. Mas todos são espertos e poderiam se inspirar nos tuítes bomba do presidente Donald Trump, aos 70 anos o mais velho eleito para o cargo. Trump entendeu muito bem. No mais, se o problema fosse de idade, bastava chamar os estagiários — o que, aliás, pode ser uma boa ideia.

Há sinais bem claros de que a equipe de comunicação de Temer não faz força para entender nem dá muita importância para as redes sociais. Pode-se levantar uma explicação plausível, de fundo histórico, para isso. O governo está acostumado a resolver seus problemas de comunicação comprando espaço publicitário na TV Globo, a mídia de maior alcance no país. Em nenhum outro lugar do mundo uma única empresa de comunicação fala com tanta gente. Anunciar na Globo é fácil, rápido e eficiente, pode ser resolvido em apenas um guichê. Ninguém quer se arriscar no matagal da internet. Quando tentou fazer isso, o governo do PT pingou um dinheirão em blogs e canais digitais que mal conseguiam comprovar a audiência — coisa que a Globo consegue.

Porém, dois eventos de grande magnitude ocorridos recentemente recomendam cautela com esses modelos tradicionais e sugerem que é hora de um pouco mais de ousadia. O voto pela saída da Inglaterra da Comunidade Europeia e a eleição de Trump escaparam completamente do radar dos políticos, dos analistas e da mídia. Os desfechos surpreendentes escancaram o que já se sabia: está cada vez mais difícil falar com as pessoas, entender o que elas querem e o que estão pensando. As redes sociais têm tudo a ver com isso.