Sobre olhadinhas em portfolios e a cultura do alisamento

Comecei a achar que estava passando por uma certa superexposição no pequeno meio fotográfico — sim, o minúsculo meio fotográfico, porque não existe fotógrafo celebridade no Brasil a não ser o JR Duran ou o Salgado, e quase ninguém sabe como são as caras deles — assim que começaram a chegar as mensagens. Assunto: “Portfolio”.

“Tem como dar uma olhadinha nas minhas fotos? Gostaria de ter uma crítica”

Minha primeira reação foi me sentir feliz, até honrado — gente, para essas pessoas, minha opinião é importante! Isso é muito foda!

Realmente, é foda, mas não no sentido que eu imaginava. No instante seguinte eu estava esmagado pela responsabilidade — o que é que se diz para alguém que mostra suas fotos mais preciosas, procurando orientação? E se eu não gostar do tal portfolio?

A posição de crítico é muito poderosa. Leitura de portfolio dá desespero pra todo mundo: dá para soltar a pasta ou ipad sem medo, porque ele não vai cair, vai ficar boiando no ar, apoiado na expectativa e ansiedade daquele camarada que está na sua frente, sem respirar. E esse poder que se ganha de graça exige responsabilidade, e maturidade; talvez até um pouco de classe, que anda em falta pra cacete por aí.

E a responsabilidade não é apenas a mais óbvia — evitar cair naquela síndrome de segurança de shopping em que o crítico destrói a auto estima do avaliado, só pelo prazer de poder arrasar alguém — mas também a de saber elogiar da maneira necessária. A crítica positiva também pode ser nociva, ou no melhor dos casos, inútil; uma espécie de parasitismo fofinho e amigável, manipulação da carência dos outros pra alimentar a própria.

Estamos em uma era em que qualquer crítica negativa pode ser enquadrada como bullying fotográfico. A pessoa te envia fotos; mas não se engane, não é para dar opinião: é para APRECIAR. São para que você GOSTE, senão…

Eu não gosto de tudo. Na verdade eu gosto de bem pouca coisa. E também não vou sair pichando coisas que me parecem interessantes só porque não estão primorosamente executadas. Meus critérios são completamente pessoais, e nunca objetivos. Posso amar uma foto fora de foco, mas não é por isso que gosto de tudo desfocado.

E a validade desses critérios é rapidamente posta em xeque quando a crítica é “negativa” — coisa engraçada, essa da crítica: se um completo mané desconhecido e praticamente analfabeto na fotografia nos elogia, ficamos felizes e lisonjeados, e nem nos passa pela cabeça questionar o embasamento daquele elogio. Nunca nos perguntamos “será que aquela pessoa sabe do que está falando?”.

Não estou nem falando de aceitar o elogio da mamãe por educação ou como manifestação de carinho: estou falando de ACREDITAR QUE SE É FODA por conta de elogios de pessoas que não fazem a menor idéia daquilo que estão falando.

Agora, se um desconhecido fala mal de nosso trabalho, lá vem a fúria simples e desavergonhada:

(aos berros) “Mas quem é esse camarada? O que ele entende de fotografia para tratar a minha arte, o meu olhar dessa maneira? Ele consegue fazer melhor, por acaso?”

Resumindo: elogio a gente aceita de qualquer um, crítica jamais. Tem que ser no mínimo Deus pra apontar algo negativo no nosso trabalho. Então, se toda crítica é subjetiva, qual a utilidade dela? Eu tenho que olhar fotos e achar algo positivo, senão fico quieto?
Adoraria fazer isso, mas é ingenuidade achar que alguém vai deixar silêncio impune.

Depois de algumas saias justas, surtos e “porra, não tenho nada de bom pra falar sobre esse troço, que que eu faço agora”, acabei desenvolvendo um método que acredito ser útil para a minha sobrevivência como professor de fotografia e como ser humano — nunca se sabe o que pode acontecer nesses momentos de fúria, não sou tão bom de briga assim -, baseado em duas perguntas simples, feitas para todo “avaliado”:

1 — Porque você fotografa?

Eu disse que era simples de fazer, não de responder. A idéia é saber qual é a da pessoa com a fotografia. A fotografia é uma ferramenta que serve para praticamente tudo; é complicado olhar para uma imagem e saber se ela funciona sem saber qual era o problema que ela se propõe a resolver. E se a mensagem que o camarada quer passar através da imagem não me agrada ou me é desconhecida, assumo: cara, não tenho como te ajudar. Não me sinto apto a dar opinião que preste sobre este trabalho.

Aconteceu uns tempos atrás. Recebi um portfolio cheio de spot colors (spot color é aquela foto em PB com uma reserva colorida, tipo buquê vermelho em foto de noiva) e vinhetas (sombreados nos cantos das imagens). O portfolio inteiro gritava:

▪ “Lightroooooom! EU FUI FEITO NO LIGHTROOOOOOOMMMMM!!!!”

Não consegui ver as fotos objetivamente. Simplesmente era impossível para mim ver as fotos, enterradas em recortes e vinhetas. Eu não conseguia analisar a expressão. Não conseguia ver o timing nem os enquadramentos. Apenas aquelas malditas vinhetas dançando.

Fato. Eu não gosto de vinheta, na maioria dos casos. E odeio spot color. Por razões pessoais, nada mais. Só ficou bom no Selvagem da Motocicleta.

Espanei e disse que não tinha como dar opinião. Expliquei meus motivos. O cara ficou puto por eu não gostar de vinheta, mas entendeu. Também não gosto de olhares de lado, nem mãos duras — sou obcecado por mãos delicadas nas fotos — mas sei que existem fotos lindas com olhares de lado e mãos duras.

Enfim, vocês entenderam.

2 — Porque eu?

Essa pergunta é importante. Enfim, por que raios alguém vem pedir leitura de portfolio logo para mim? Às vezes a razão é clara e lógica — e me faz reconsiderar. Mostrar portfolio é como confessar pecado — se a pessoa para quem você conta não for escolhida a dedo, você corre sério risco de sair de lá sem orientação, apenas com julgamento e um carimbo na testa. E vai saber com que critério você foi julgado…

Se fui escolhido por alguma razão importante, não fujo da análise, por menos que goste do portfolio.

Então, se o camarada me dá resposta a essas duas perguntas, posso retribuir com uma opinião útil, ou indicar alguém mais apto, o que pode ser mais útil ainda.

No fim das contas, leitura de portfolio é uma troca interessante. Mas só se as seguintes condições forem satisfeitas:

1- O crítico descer do pedestal (até porque na maioria das ocasiões ele não fez porra nenhuma pra merecer estar em cima de um), tiver um mínimo de preparo e de inteligência emocional;

2 — O avaliado apresentar o mínimo de maturidade para entender que uma leitura é apenas o reflexo de seu portfolio em uma pessoa qualquer;

3 — Ambos não se deixarem levar pela cultura do alisamento em que vivemos hoje. Não vai adiantar nada trocar joinhas; o “é dando que se recebe” funciona, mas é desonesto e lá na frente acaba se revelando.

Posso dizer que há poucas pessoas em que realmente confio para criticar meu trabalho. O resto é solenemente ignorado; quero mais é que se foda. Você pode dizer o que quiser sobre as minhas fotos, positivo ou negativo, mas aviso: tá gastando saliva, a menos que eu tenha te perguntado algo. Não me levem a mal: elogio fofo é sempre legal, e eu gosto de fofice, até. Vou ficar feliz e grato pela consideração, mas não vou levar a sério.
E sugiro a vocês que façam o mesmo. Portfolio não se mostra pra todo mundo, e o fato de alguém ter experiência em fotografia não quer dizer que esteja preparado para emitir uma orientação útil: um boi pode arrastar arado por vinte anos, mas não vai entender de agricultura por conta disso.

Evite dor de cabeça: Mostre seu portfolio a alguém que fotografa de maneira parecida mas está adiante no caminho, que possa se identificar com seu trabalho e assim mostrar se você está na direção certa ou não, se há atalhos ou falhas.

Sugiro também que, uma vez bem escolhido o crítico, OUÇA o que ele tem a dizer. Positivos ou negativos, os comentários serão úteis. Não leve comentários negativos como ofensa pessoal — o que está em discussão são as imagens, não as pessoas. Uma vez no ringue, não é hora de delicadeza; ou você vai estar desperdiçando seu tempo e o do crítico.

Não faça como a maioria, que sai por aí catando elogios desesperadamente, fechando os ouvidos e desqualificando todo comentário negativo. Não confie em Flickr, ou comunidades de fotografia. Comentários vazios como “Gostei!” “Linda foto” e “que sensibilidade” são tão ruins como “Que merda de foto”. Nenhum deles serve para nada.

Sinceramente, gostaria que essa falsa polidez que torna a imensa maioria das críticas completamente inútil fosse deixada de lado, assim como a frágil tentativa de autoafirmação de quem se mete a fazer essas críticas. Faria do meio fotográfico uma escola muito mais eficiente, formando melhores fotógrafos e melhores pessoas. Gente com mais iniciativa, mais segura e menos hipócrita.