Vamos morar na Lua?

‘Nascer da Terra’, feita em 24 de dezembro de 1968 a partir da Lua. Mostra o planeta surgindo parcialmente na sombra, como um nascer do Sol.

Imagina que louco morar na Lua? Eu e você morando na Lua? Não. É loucura demais. Imagina que louco a gente morando na Lua? Mas nem nos casamos ainda. Não tem problema, na Lua não precisa casar pra morar junto… É só… Gostar. Vamos fazer uma casa grande com tijolo estelar. Não tem problema a casa ser grande, pra ir do quarto à cozinha vai ser dois pulos, literalmente. A gravidade será a favor. Se você quiser, podemos ir visitar seus pais no interior -da Terra- uma vez por década. Sua mãe vai ficar feliz em ver como, apesar de ter passado tanto tempo, você continua jovem.

Podemos arrumar um cachorro intergalático de seis patas e dois rabos (porque ter duas cabeças é algo muito cliché — ficcionalmente falando) se você quiser. Já pensou como seria o final das tardes? Tudo claro e tudo escuro. Vendo o dia nascer na Sri Lanka enquanto morre na Argentina. A casa vai ficar cheia de poeira cósmica e, na Lua, não tem empregada. Sinto muito. Eu te ajudo a varrer. Talvez você não goste desta ideia, mas na Lua não tem chocolate. Sua TPM vai ter que ser suprida com as batatas doces que eu plantei na areia lunar junto com os pimentões roxos. E também não precisa se preocupar com cólica e dor de cabeça, vou levar uma mala cheia de remédios. Sei que eles vão perder a validade rápido, mas até lá já estaremos bem adaptados.

Fica tranquila, criei um gerador de energia movido a relatividade. Vamos continuar assistindo seu programa favorito de domingo a noite na televisão, já tem internet na Lua. Também, se não tivesse, como iríamos fazer pra mostrar pros nossos amigos da faculdade o quão bem de vida estamos? Como viveríamos sem postar foto do nosso almoço? Arroz integral interestelar, alface orgânica celestial, filé cósmico e suco dos escoamentos salinos. De sobremesa, gelatina de uva, afinal, é uma das únicas frutas que eu consegui trazer sem semente. Já temos 5 hectares de terra disponíveis pra plantio. Tomara que a safra deste ano não tenha problemas com as pragas Netunianas igual ano passado. Que saco foi colocá-las de volta à órbita. As galinhas se adaptaram muito bem. Apesar da carne estar um pouco mais dura, os ovos são maiores e mais densos, resultando naquele maravilhoso omelete bólido.

Sinto muita falta de escrever. Os lápis já acabaram e, mesmo que as canetas tivessem tinta, o papel também acabou. E eu não sei fazer um lápis usando as árvores que a gente plantou aqui, nem uma caneta usando as penas das galinhas. Me lembra, por favor, de por mais papel e mais canetas na lista de compras que precisamos fazer na Terra quando formos visitar seus pais.

Meu Deus! Já estamos na Lua há 32 anos e só agora pensamos em ter um bebê? O primeiro ser humano de outra origem planetária. Nasceu mês passado, já é bem grandinho pra idade dele. Com um ano já falava e saltava. Deixa ele ir estudar na Terra, conhecer uma garota e se casar. Qual o problema? Os jovens querem sair logo de casa.

“É pai, você tinha razão, a Terra é um saco. Ser mandado não é legal. Odeio a comida daqui. Estou voltando, chego em 2 anos. Estou levando folhas, papéis e o despertador novo, conforme havia pedido. Não se preocupe, minha noiva está indo comigo, vamos nos casar aí na Lua também. Vovô está com saudades. Até mais, câmbio e desligo.”

Uma pena, filho, você ter trazido as cinzas do vovô junto aos lápis e o despertador. O primeiro funeral extraterrestre. Acabamos de doar novos átomos ao solo lunar. Átomos que talvez um dia pertencera à Lua.

Não posso afirmar que a vida é melhor na Lua, mas está sendo. Nunca morei em Marte pra poder afirmar isso. E se lá for melhor? Tenho um amigo que se formou, fez estágio em Marte e, desde então, mora lá. Imagina que louco morar em Marte? Eu e você morando em Marte? Não. Aí sim, é loucura demais.


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