Da série “Besteiras que já fiz” — 01

Como neste artigo eu vou citar fatos que realmente ocorreram, e como não sei quem vai ler, todos os nomes das pessoas envolvidas foram preservados, por motivos óbvios.

Este ano (2016) completei 40 anos, e cheguei no que algumas pessoas costumam chamar de “meia idade”. Aqui já vem a primeira questão: por que meia idade? Será que quem cunhou este termo acha só vamos viver até os 80?

Bom, com os 40 veio também uma crise reflexiva. Este ano, até o momento, foi de muita reflexão sobre as coisas que fiz até agora, e cheguei à conclusão, bem óbvia por sinal, de que fiz muita besteira na minha vida até aqui. Claro que fiz muita coisa boa também.

Me arrependo de tudo que fiz de errado? Não! Me arrependo de algumas coisas, claro, mas eu sou o resultado final de todas as experiências que tive até aqui, sejam elas boas ou más, e isso é o que eu sou. Se quero ser uma pessoa melhor no futuro, o mais certo que tenho a fazer é olhar para o passado e não repetir os mesmos erros e fazer as mesmas besteiras.

Quando eu tive a “genial” ideia de querer entrar numa gangue

Não sei porquê, mas numa dessas reflexões, me veio a lembrança de quando eu tive a “genial” ideia de querer entrar para uma gangue.

Acho que eu tinha uns 13–14 anos na época, e me achava maduro, responsável e inteligente o suficiente para tomar os meus próprios caminhos na vida.

Na época eu tinha alguns poucos amigos, praticamente todos estudavam comigo, e apesar de minha família na época ser classe média-baixa (tinha casa própria, pagava as contas em dia e tinha comida na mesa, mas não tinha muitos luxos) meus pais sempre me deram o melhor que eles podiam.

Acredito que por causa disso, e por causa da educação e exemplo que tive dentro de casa, nunca fiz uma cagada muito grande ou meti em confusões sérias, apesar de ter passado bem perto por diversas vezes.

Agora vejam qual era a minha realidade da época, e por que essa ideia de querer entrar numa gangue era, no mínimo, ridícula:

  1. eu morava numa cidade pequena no interior do Paraná. Hoje essa cidade deve estar com uns 11.000 habitantes, imagine quantos tinha na década de 80, quando eu tinha 14 anos.
  2. eu era o filho mais velho de uma professora da rede pública. Isso é o equivalente a você ser quase uma celebridade local. Todo mundo te conhece e sabe quem você é e onde você mora.
  3. eu não tinha a menor ideia dos problemas legais que eu, ou meus pais, poderiam ter caso eu me juntasse com uma “gangue”.
  4. eu, como todo pré-adolescente, precisava me “auto-afirmar”, mostrar que eu podia mandar na minha própria vida, e toda essa besteirada que adolescente pensa.

Na época eu tinha alguns poucos amigos, estava numa fase que discordava constantemente da autoridade dos meus pais, que obviamente me impunham seus limites, no intuito de me dar uma melhor educação e me preservar, como dizia minha mãe, das coisas ruins do mundo, só que como uma pessoa totalmente imatura, eu não tinha essa compreensão.

Hoje vejo que essa forma de criação mais repressora e rígida moldou positivamente o meu caráter mas na época, pré-adolescente, eu não tinha a menor noção disso.

Quando eu passei da ideia para a ação

Então, voltando a estória da gangue, em algum momento eu achei que me juntar a uma gangue seria uma boa ideia. Só que eu esbarrava em alguns problemas:

  • eu morava numa cidade pequena e pacata, não tinha gangues num lugar desses;
  • meus pais tinham um controle rígido sobre sair de casa, principalmente se fosse a noite: sempre perguntavam onde eu ia, com quem, e marcavam hora para eu estar em casa. E ai de mim se não cumprisse o horário!

Mesmo ciente que estes dois itens já seria um impeditivo absoluto para as minhas ideias de se juntar a uma gangue, eu continuei com essa ideia me remoendo, até que um dia eu ouvi uma amiga de escola citar um cara que estava montando uma gangue na minha cidade.

Lembro que dei um jeito de saber o nome do cara, e como eu poderia entrar em contato com ele.

Apesar da cidade ser pequena, como toda cidade ela tinha (e tem), lugares mais pobres e mais feios, e lugares potencialmente perigosos, e eu soube que esse cara e o resto do grupo se reuniam num bar localizado bem nessa área, que não era muito longe de minha casa, mas que obviamente meus pais não deixariam eu ir sozinho a noite.

Depois de conseguir o telefone do trabalho do cara (olha que ideia idiota!) e liguei, pedindo para falar com ele.

Quando o cara me atendeu, eu estava tão nervoso que devo ter falado um monte de besteira (não lembro o que eu disse). Só lembro que o cara riu do outro lado da linha e mandou eu ir procurar o que fazer.

A decepção que eu tive foi grande, mas ainda assim não desisti da ideia, apesar de começar a achar que já não era uma ideia tão boa assim.

Depois de uns dias, eu menti para minha mãe dizendo que eu ia na casa de um amigo e fui no bar onde esse cara se reunia com a “gangue”. Nada mais era que um boteco pé-sujo que ficava no meio de uma quadra comercial.

Fui ao tal boteco, mas ao invés de entrar, fiquei do outro lado da rua observando, e tomando coragem. Tudo o que vi foi algumas pessoas, homens, com cara de cansados de um dia de trabalho, sentados numa mesa de bar, ou sentados na beira do balcão bebendo, alguns fumando (na época as leis antitabaco não eram tão rígidas, então se fumava dentro dos bares mesmo), alguns jogando sinuca numa mesa no canto, mas nada mais que isso. Aquilo me desencantou totalmente e eu desisti de entrar ali.

Nos dias seguintes, a ideia de entrar numa gangue foi saindo da minha cabeça e nunca mais tive esse tipo de ideia de novo.

Que conclusões eu tirei dessa ideia de jerico

Hoje, ao lembrar desse fato que ocorreu a quase 30 anos, tudo o que eu posso fazer é rir do tamanho da idiotice que eu estava fazendo.

  1. onde eu estava com a cabeça pra ligar para um completo desconhecido querendo entrar na gangue dele. A palavra gangue já dá a ideia de algo ruim, marginal. E ninguém quer ter seu nome ligado a algo ruim. Imagino a surpresa do cara ao atender o telefone, no trabalho dele, e ter um moleque do outro lado da linha querendo entrar pra gangue que, supostamente, ele era o chefe. Ele deve ter ficado muito puto, ou no mínimo deve ter me zuado até não aguentar mais.
  2. eu era menor de idade, e mesmo com as leis menos rigorosas na época, um menor frequentar um bar a noite não era visto com bons olhos e poderia dar inclusive problemas com o dono do bar por permitir um menor desacompanhado no estabelecimento.
  3. apesar de ser uma cidade pequena e pacata, eu ter ido parar na frente do tal boteco foi um ato arriscado. Eu poderia ter sido sequestrado, estuprado ou morto, e ninguém iria ficar sabendo, já que menti e fui a um lugar que não era o que eu havia informado aos meus pais.
  4. eu não tinha nem juízo na época, quanto mais dinheiro pra frequentar um bar.

Não sei se os meus amigos na época tiveram uma ideia estúpida como essa, mas analisando friamente a situação, se realmente eu tivesse ido em frente e entrado em alguma gangue, meu futuro não teria sido bom e talvez eu não estivesse hoje fazendo esta reflexão.

Ahhh, uns tempos depois fiquei sabendo que a tal “gangue” nada mais era que uns caras que se reuniam no boteco pra tomar umas cervejas e jogar sinuca depois do trabalho.