E saiu sem olhar pra trás
Toda aquela nuvem de pensamentos carregados pairando sobre e através dos seus olhos, prontos para disparar uma tempestade.
Àquela hora ja era tarde, afinal, ja havia perdido o timing.
Se é estranho estar e não estar em algum lugar, ao mesmo tempo? Sim, era assim que se sentia, e parecia que seu corpo era feito de holograma, e seus átomos translúcidos se misturavam em imagens de um software de realidade aumentada, daqueles de interfaces múltiplas e facilmente cambiáveis, naquela ideia futurista estereotipada repetida nas mídias de entretenimento por ai. Sem foco, força ou fé.
Ao mesmo tempo, talvez lhe parecesse produzir algum alívio executar alguma atividade mecânica, apenas caminhava pela vizinhança, reparando nas cores sem se fixar em nenhum detalhe, prestando atenção na textura dos muros e paredes, para em frente a uma de tijolos e sente a aspereza na ponta dos dedos e em seguida, toca as próprias bochechas, sentindo a carne quente e macia. Sensações, pensamentos, atordoamento. Quantos segundos coube naquele momento?
Sua roupa não era assim tão confortável, e se distraiu ao pensar, qual o motivo de usa-las? Não é como se realmente houvesse uma fronteira entre o eu e o universo, não é como se de alguma forma pudesse se proteger de todo o caos ao redor, não é como se ele já não houvesse se instalado dentro, dos lados, abruptamente. A vida era uma sequencia de pequenos acasos e devaneios como aqueles, ou o que então?
Respirou fundo e parou pra sentir o ar em fluxo dentro e fora do seu corpo. Poderia ser qualquer coisa ali, se assim imaginasse, não? poderia ser sentimentos ou vontades? Poderia ser o peso, ou a leveza correndo clandestina, deixando só a ansiedade, poderia ser a sanidade, ou entrando um pouco de loucura. Sera que todo aquele estado átomos-softwares-realidade-holográfica tinha cura? Onde estava aquele eu, em toda aquela viagem de pensamento?
Onde esta o seu eu, e em que pensamento?
“No que você está pensando?”
