Joaquim

Joaquim era um bebê magro e cabeçudo. Talvez, ele nem fosse cabeçudo. Talvez, sua cabeça se destacava por ele ser pequeno, ter os membros magros demais, a clavícula acentuada e a pele marcando as costelas. Talvez, ele fosse assim pela falta do leite materno. Sua mãe não pode amamentá-lo, pois não tinha leite no peito. Ela não produziu leite por não se alimentar direito. E não se alimentou direito por falta de dinheiro.

João era o pai do bebê magro. Ele fugiu; deixando a esposa com a dívida que o vício daquele pó branco criou. João sumiu no segundo trimestre da gravidez e nunca mais apareceu. Talvez, os traficantes o acharam e o mataram; mesmo tendo levado tudo de sua mulher.

Marta se virava como podia. Pedindo dinheiro ou comida e procurando abrigo na rua. Seu estômago fazia barulho; mas o choro do bebê era mais alto. Sempre mais alto. E menos suportável. Bem menos suportável.

Ela só precisava de dois e trinta. Dois reais e trinta centavos. Tinha achado uma mamadeira velha jogada na rua e lavado no córrego, perto de uma avenida da cidade. Só faltava o leite para calar o menino por um tempo.

Marta procurou as moedas do dia anterior. Ainda estavam lá. Trinta e cinco centavos que conseguira pedindo no ponto de ônibus. Uma senhora de cabelos brancos e olhos claros, quase escondidos por trás das lentes redondas, lhe havia dado. Marta lembrou-se do sorriso de esperança que a senhora lhe dera junto das moedas e sentiu raiva. Balançou um pouco mais Joaquim para ele parar de gritar e suspirou irritada.

O sinal ficou vermelho. Hora de se humilhar outra vez. Talvez, os berros da criança ajudariam conseguir o dinheiro mais rápido. Vidros fechados, motoristas indiferentes, pessoas fingindo procurar moedas, dando desculpas e avisos do tipo “cuidado com o que vai fazer com esse dinheiro, hein?!”.

“Como se eu fosse ter forças pra aguentar o choro mais um dia.”, ela respondia mentalmente enquanto sorria agradecendo.

Quando o sol estava baixo, Marta recontou o dinheiro. Dois reais e sessenta e cinco centavos. Sentiu alívio e beijou a cabeça de Joaquim.

Ela pensava em como fazer o leite durar mais fora da geladeira para alimentar o bebê mais de uma vez e se questionava se deveria tomar um pouco também. Olhava os preços e não sabia se levava o mais barato de todos ou o razoável. Queria o que fosse melhor para sustentar seu filho; mas não sabia quanto dinheiro teria no outro dia.

- Senhora, preciso que se retire. — a voz do segurança era educada e aflita.
- Só quero um leite. — ela disse pegando o mais barato num gesto rápido e brusco fazendo com que Joaquim voltasse a chorar.
- Senhora, por favor, precisa se retirar da loja.
- Ele tá com fome. —ela balançava o bebê numa tentativa frustrada de acalmá-lo. O choro ficou mais alto.
- Preciso cumprir ordens. — o homem alto disse pacientemente. — Por favor, saia. — a voz era firme e o olhar a assustava.

Com o leite mais barato em mãos, Marta virou-se. O homem segurou forte seu braço, tirou o produto de suas mãos e apontou para a porta de saída.

- Preciso cumprir ordens. — encarou-a e ela não teve outra escolha.

Saiu dali sem leite, com o braço dolorido, um nó na garganta e a cabeça explodindo com os gritos do filho.

- Cala a boca! — Marta chacoalhava o bebê. Lágrimas escorriam dos seus olhos e a raiva apertava o peito. Joaquim chorava com mais intensidade conforme a mãe ficava mais enfurecida.

Na manhã seguinte, um bebê magro e cabeçudo estava silencioso e sozinho em um canto qualquer da calçada.


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