Memória, história, remembramento

“Eu vivi a ditadura militar.”

Essa frase não é minha, nasci nos anos 90. Alguns poderiam argumentar que não posso falar sobre o que não vivi; entendo que a vivência seja importante para conferir propriedade à abordagem de certos assuntos, em certos momentos. Há casos em que o relato pessoal vai mais fundo e fala mais alto, por revelar coisas que outros talvez não saibam, não tenham vivido.

Só que às vezes a disputa não é pela fala mais autêntica, ao menos não no sentido individual.

É claro que sabemos que historiadores não precisam ter vivido o que estudam, por exemplo. Pesquisam segundo metodologias específicas e se submetem à avaliação recorrente de seus pares. Consensos acadêmicos não se formam do dia para a noite, muito menos sem evidências suficientes. História (referindo-me à disciplina) é diferente de memória, que é diferente de uma lembrança pessoal. Assim como não vivi a ditadura, tampouco sou historiadora. Por isso, não posso dizer que tenho conclusões autorais e sérias a respeito de fatos ou períodos históricos.

Mesmo que eu tivesse vivido a ditadura, porém, haveria aí um impasse. Tendo vivido o ano de 2017, por exemplo, posso dizer que efetivamente vivi apenas uma pequenina fração do que se passou no país e no mundo, dentro do contexto que me cerca. Só posso falar do que vivi em 2017 a partir disso, da mesma forma que essa vivência só poderia ser relatada, a princípio, por mim e mais ninguém.

Como até me esforço para olhar ao redor e para me manter informada, o que não quer dizer que eu saiba muita coisa, sei de coisas que não vivi; muito mais aconteceu, porém, que eu não vivi, não vi, nem fiquei sabendo. Por isso, nunca terei uma perspectiva mais ampla do que minha vivência me permite — ou, melhor dizendo, qualquer tentativa minha de relatar algo será diferente de um estudo rigoroso. Minhas conclusões não se equiparam àquelas geradas por quem se dedica agora ou se dedicará, no futuro, a fazer um levantamento histórico comprometido com o rigor de pesquisa.

Faço aquilo que está ao meu alcance: leio o que pessoas dedicadas às suas áreas de conhecimento publicam, dentro do que posso compreender como leiga; observo as referências dessas pessoas; faço perguntas; busco contrapontos (que sejam respeitáveis, já que não adianta buscar contrapontos desonestos apenas por serem contrapontos). Sublinhe-se que não se trata de absorver conteúdos acriticamente, muito pelo contrário. De forma geral, quanto mais estudamos algo, mais críticos podemos ser, ainda que essa proporção não seja mensurável. Trata-se de se esforçar para entender um assunto respeitando o trabalho daquelas pessoas que se dedicaram a produzir todo aquele conhecimento com respaldo — um trabalho que, muitas vezes, é de uma vida inteira.

Uma vida inteira dedicada à pesquisa. Esse frase não soa estranha a algumas pessoas e certamente a nenhuma acadêmica, mas pode soar hiperbólica para a maioria, que não sabe como se produz esse tipo de conhecimento nem conhece o trabalho universitário. Um só aspecto de uma pesquisa pode demorar anos, sem que a quantidade de tempo determine necessariamente seu grau de dificuldade. Há muitíssimos fatores envolvidos em tudo isso, um deles sendo a precariedade de condições de pesquisa no Brasil.

É uma pena que a universidade, de forma geral, seja tão apartada do resto da sociedade. É culpa nossa, inclusive. Isso gerou uma legião de pessoas que, em vez de nutrir respeito e interesse pelo conhecimento cientificamente e/ou academicamente construído, nutrem preconceito, desprezo e até desconfiança, especialmente perante ciências humanas, filosofia e literatura. Esse assunto é, contudo, mais complexo do que caberia abordar aqui.

Respeitar o trabalho sério de pessoas dedicadas a isso não é se submeter a doutrinação alguma. Tampouco significa jamais duvidar de nada — afinal, como já dito, devemos buscar contrapontos e, principalmente, entender como consensos acadêmicos se formam.

Em resumo, fica este apelo: respeitem historiadores (e sociólogos, filósofos, jornalistas, linguistas, economistas…). Perguntem, dialoguem. Questionem com respeito, não com a arrogância da pretensa universalidade de sua vivência pessoal. Além de leituras, há podcasts e vídeos no YouTube feitos por pessoas sérias, com materiais de fácil acesso e sem jargões. Mas não procurem só o que agradar. Ampliem.

Se não tiverem mesmo nem tempo nem interesse para nada disso, tudo bem, mas a primeira recomendação é indispensável: respeitem.