Humano

“Lembro-me quando ainda éramos felizes juntos, quando ainda nos ríamos das palhaçadas que fazíamos, parecia um conto de fadas, mas daqueles com início e sem fim à vida. Eu era o teu tudo e tu o meu nada, nós éramos felizes, até que tudo se destruiu do nada. Eu era a escuridão do teu amanhecer, eu era aquele ponto no meio da tua história, eu era a tua sombra perante a luz do dia.

Eu era Humano, até te querer.

Eu era a tua salvação dos teus dias cinzentos, eu era a tua felicidade reduzida a quinhentos. Eu fui a tua paixão e tu a minha perdição.

Eu era Humano, até te obter.

Eu fui a tua alma e tu o meu apoio, eu fui a tua protecção nos dias de grande acoito. Eu fui o teu caminho e tu o meu labirinto.

Eu era Humano.

Eu fui as tuas lágrimas e tu o meu desapontamento, eu fui a tua razão e tu a minha satisfação, eu fui aquele ser que te deixou louca e tu a minha razão de enlouquecer.

Eu fui Humano, até te perder.

Eu fui o teu stalker nas tuas horas vagas, eu fui a tua sombra mesmo quando escapavas, eu fui a tua consciência e tu a minha aprendiz, eu fui um mestre e tu foste a minha batalha.

Eu fui Humano, até te descobrir.

Eu fui o apoio para as tuas lágrimas, eu fui um idiota que te secava as palavras, eu fui um aposente total e tu um desprezo banal.

Eu fui Humano, até me aperceber.

Eu fui um convidado mistério do teu casamento, eu fui o teu padrinho sem te aperceberes ao certo, eu fui uma visita na hora do parto, eu fui um conhecido para o teu novo auto-retrato.

Eu fui Humano, até te conhecer.

Eu fui a tua bengala e tu a minha cadeira, eu fui as tuas feridas e tu a minha cura, eu fui a tua televisão e tu a minha espectadora, eu fui a cama e tu a minha paciente.

Eu fui Humano, até morrer.”
Ali3n