Rascunho de mim

Ser um rascunho de mim! Esse sempre foi um medo real, uma angústia constante, uma cobrança sem fim.

A “eu ideal” levanta muito cedo, faz academia, toma café da manhã com todos os detox possíveis e imagináveis, vai trabalhar alinhada e devidamente maquiada, sempre.

A “eu ideal” trabalha em algum lugar interessante, com pessoas igualmente interessantes e engajadas, que tem o que dizer e que a querem escutar.

A “eu ideal” almoça saudavelmente, cortou o doce (ta, no final de semana pode) e parou com a cerveja… Não… Nem a “eu ideal” faria isso. Diminuiu a cerveja e adotou um vinhozinho de vez em quando.

A “eu ideal” sai duas vezes por semana do trabalho para a aula de salsa, tem o inglês e o espanhol praticamente nativos, e o francês ta quase lá.

Janta shake, bebe 2 litros de água por dia, está com os exames sempre em ordem, faz ioga, nunca tem preguiça de sexo e dome 8 horas por noite.

Ninguém suporta a “eu ideal”.

E aí ela se toca que me comparar à ela, que não existe, só me faz focar naquilo que não alcancei, deixando de lado todas as conquistas.

A “eu ideal” sabe, por exemplo, que foi uma escolha corajosa que me trouxe para a “cidade grande”, onde tive amadurecimento profissional e pessoal em nível hard, aprendendo a me virar na vida.

A “eu ideal” sabe que essa mesma escolha serviu para que hoje eu saiba que não era bem isso que eu tinha em mente e que decidir que a vida é uma dádiva preciosa demais para ser desperdiçada com algo que não gosto foi mais uma escolha corajosa.

A “eu ideal” sabe que esse é só o começo e que não devo me arrepender de nada que foi feito até aqui.

A “eu ideal” dá graças a Deus por não existir. E eu também.