Cotidiano

O barulho ritmado e pendular do gotejamento da chuva no balde é a sinfonia da sala. A gota de água, forasteira de poças sujas daquela cidade, percorre por entre as instalações elétricas, a infiltração, a laje, a telha e cai. Através da lâmpada. O barulho da chuva toma a posição de harmonia que provoca sonolência para a audição atenta. E o cigarro queima. A fumaça então encontra a fração de água que se desloca pelo ar. E a preocupação do cidadão cotidiano é sempre a mesma. O desafio mais difícil vivido que qualquer escalada da montanha mais tenebrosa. O equilíbrio custoso entre sua alma e sua sobrevivência. Acorda. Trabalha. Come. Trabalha. Come. Fode. Dorme. Ad infinitum. E morre.

Mal sabe ele que existe semelhança centenária nessa rotina. A nova revolução do ser. Ainda assim industrial. Afinal, não existiria uma semelhança evidente entre o operário inglês do século XVIII e o trabalhador brasileiro, prestes a ter seus direito sorrateiramente tirados pela superestrutura? Sociedade esta em que o valor do trabalho é rendimento, é número excessivo de horas trabalhadas? Ora, glorificados são aqueles os workaholics, histórias escassas daqueles que nada tinham e todos-poderosos viraram. Doce anedota para iludir o trabalhador mediano.

O coelho na cartola do mágico sistema é a meritocracia. E o homem comum segue, assim, todo dia usando das poucas horas que dispõe fora do ambiente de trabalho para locomover-se para este. Ou para aperfeiçoar-se para este. Um belo gravitar ao redor do lucro. Desde que este não seja destinado ao pobre cidadão, obviamente.

A impregnação desta lógica é tão sutil quanto o toque da seda no micro-cotidiano. Conheceu alguém novo? Há a fórmula da apresentação: nome consolidado com a certidão de nascimento, idade e função social. Desta forma, ocorre o escaneamento fácil pelo desconhecido sobre o que faz, como se vive, o que se pensa. E as câmeras seguem atentas para a manutenção da posição social.

A metrópole é tão viva não só pelo pulsar diário passivo de sustentação de seus moradores, mas também pelo organismo vivo que na realidade é. A perifaria sustenta o centro, dia após dia faz movimento de batimento cardíaco, para manter esse corpo vivo. O tempo crescente de congestionamento e a redução proposital de investimento tem função de prevenir o cidadão cotidiano de sua expressão criativa individual e de manter acesa a chama da robotização diária.

No macro-cotidiano, a organização da cidade é feita para manter a estrutura e evitar surtos de manifestação social. E concretiza mais uma evidência da secular disparidade que surgiu quando o primeiro dos homens cercou a primeira terra e promulgou ‘’Isto é meu’’. E as gotas seguem a cair. O cigarro terminou, e é hora de esvaziar o balde, porque dinheiro não há para reparar a habitação. E lá fora a chuva segue a desaguar por entre as ruas e os bueiros.

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