Suco

Obtendo um vislumbre gratuito daquilo que eu ousava chamar de tranquilidade naquele momento, preparei um suco a partir de uma mistura hortifrúti do que me vinha na cabeça e dispunha na geladeira. “Quero que esse rolê rasgue meu paladar”, pensei. Botei três limões; três folhas de couve; duas cenouras e duas maças no liquidificador.

Afligiu-me a sensação, depois de acabar os últimos livros que eu li, de transportar toda a massa densa de subjetificações, para uma zona cefálica localizada em algum ponto-cego que eu não conseguia tangenciar depois. “Dessa vez vai ser diferente”, decidi antes mesmo de abrir a primeira página do Meia Noite e Vinte, novo livro do Daniel Galera; antes de começar a morrer; antes de transparecer, num espetáculo pra mim mesma, tudo que tem de inseguro e intranquilo em mim, mais uma vez, num apego solitário por personagens de um livro limitado, espacialmente, a cento e poucas páginas. Eles começaram a morrer depois daquela rebarba de três páginas após o ponto final; traduziram-se em uma relação utilitária a partir da corpulenta figura da nota da editora em seguida. Acabou. Parecia que tudo tinha se afastado de mim numa revoada de desbotados fragmentos. “Dessa vez vai ser diferente”.

Tô tomando um suco azedo em um dia refrescado de janeiro; tô ouvindo as pessoas buzinando dentro dos carros, lá embaixo, como se fossem os“haters” por trás de suas aparições por fakes, nos cometários de reportagens dos jornais web ou vídeos no youtube, e suas mensagens com doses cavalares de hormônios-virtuais e coragem-em-bytes, mas sem expor o perfil oficial. Consigo sentir o ódio que essas pessoas estão virtualizando, isso chega aqui através do vento que reverbera os sinais dessa paisagem sonora. “Ruídos são sons que aprendermos a ignorar”, lembrei o que li esses dias. O vento bate em mim da mesma forma que bate no prédio de concreto que me comporta e nas árvores que eu avisto daqui, lá longe, se movimentando na mesma velocidade que as algas dentro da água. “O movimento é uma questão de densidade”, resmunguei parada e densa atrás da parede, a onze pés direitos do asfalto, observando o que acontecia no outro buraco da janela do prédio da frente, pelo buraco da janela da sala onde eu me encontrava. Sinto vontade de espalhar fogo com esse vento; queimar alguns quilômetros de carros e buzinas e computadores.

Quero me masturbar agora, são oito da noite; quero conhecer alguém, um dia, quem sabe? que valorize relações sem precisar estar por baixo; quero aprender a fazer isso antes desse momento. Quero analisar toda a construção que alguém se propõe a fazer sobre si mesma achando que tem algum interesse verdadeiro por mim. Quero também simular que eu entendo dos movimentos que geralmente são lentos demais pra minha percepção do tempo, tipo o estrangulamento de um cinamomo centenário por uma jovem figueira. Tô criando expectativas sobre mim mesma e talvez isso não seja saudável; talvez eu só esteja tomando esse suco azedo pra me convencer, deliberadamente, de que eu posso ficar tranquila depois que acaba, mesmo que eu não queira que acabe. O que? Qualquer coisa que eu não queira que acabe.

Talvez eu só tenha feito esse suco azedo pra provar, na disputa por razão comigo mesma, que meu paladar é mais resistente do que eu quando achei ofensivo demais o bilhete, anônimo, que algum colega de apartamento deixou por cima do fogão com a melhor, é claro, das intenções moralizantes; de que eu não preciso ser uma marionete cósmica das inseguranças e insatisfações pessoais do meu pai e da minha mãe; de que eu não preciso me isolar pra me reconhecer; de que eu já tenho disciplina em mim; de que eu consigo juntar ideias a meu favor, da mesma forma que eu junto o papel cagado que foge do compartimento de guardar papéis cagados, no banheiro compartilhado por vários cus.

To tomando esse suco azedo tentando algum movimento.

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