Chão de buracos

Meu chão é cheio de buracos,
é neles que espalho meus cacos.
Vivo, assim, aos pedaços.
A cada momento escolho um,
nunca posso estar em todos e 
prefiro me fincar em nenhum.

Esse chão de buracos é 
minha personalidade de fatias
de mentiras e alegrias
de diversões e aversões
de solidões e multidões,
de predileções a oposições.
É um lugar instável, 
sem água potável, 
onde nascer é deplorável.

Ele me faz ser engraçada
mas, se quero, sou a piada. 
Ele me deixa inteligente
mas, se deixo, sou só intransigente.
Irada, desvairada, enraizada
nessa superfície sem tubulações,
já pedi perdões,
já prolonguei discussões,
já esqueci convicções,
já desejei só transgressões.
No fim, ficam só meus lados,
divididos, sem divino, interrompidos 
e minhas poucas constatações.

Eu queria ter mais terra
pra cobrir essas rachaduras
deixar minhas fendas menos obscuras.
Quem sabe permitir que, 
em algumas dessas fissuras,
brotasse algo maior que só loucura.
Afinal, um chão de vazios
só pode ser bom pra ver navios.