A cruel visita do tempo Ou Descobri que minha arma é o que a memória guarda

Alice Name-Bomtempo
Sep 3, 2018 · 2 min read

de 03 de setembro de 2018

Há duas semanas atrás eu tava no carro indo pra Minas com o meu pai. Perguntei se aquela era a estrada na qual ele mais tinha dirigido na vida, mesmo já sabendo a resposta. Ele me contou de quando trabalhava em Juiz de Fora e estudava no Rio, o que o levava a pegar estrada umas quatro da manhã semanalmente.

“todo jovem faz loucuras, claro, mas eu tomava cuidado.”

Isso foi em 1975 e naquela noite de 2018 eu me perguntava quanta coisa essa estrada já viu nos últimos 43 anos, nos anos anteriores, nos que ainda estão por vir.

Ouvíamos, por tradição, “Minas”, do Milton. A nossa música favorita é Saudades dos Aviões da Panair. Ela fala de muitas coisas. Uma delas é que o mundo cabe numa mesa de bar. Naquele momento, o mundo parecia caber naquela estrada também, naquela conversa, naquele trânsito de noite de sexta-feira, naquela chuva, naquele frio, naquela imagem do meu pai de quando ele era apenas um pouco mais velho que eu. É sempre doido pensar que nossos pais já foram a gente, que a gente um dia vai ser os nossos pais.

No livro “A Visita Cruel do Tempo”, da Jennifer Egan, o mundo vive cabendo perfeitamente nos instantes e ainda assim violentamente transbordando as pessoas, porque a gente tá sempre e inevitavelmente preso no nosso corpo e no agora, e disso só vamos escapar quando morrermos. É, é cruel.

Mas mais duradouros e potentes que os nossos corpos são a nossa memória coletiva e os registros materiais da nossa cultura e história. 20 milhões desses foram queimados ontem junto do Museu Nacional. Me pergunto quantas coisas ele já tinha visto nesses 200 anos de instituição, quantas pessoas já o tinham visto, quantas que nunca irão vê-lo. Tudo de triste existe e não se esquece.

E mais cruel e triste ainda é lembrar justamente que nossa arma é o que a memória guarda. Tá tudo na merda, que nem no livro da Jennifer. Eu acabei ele hoje. O final são dois caras casualmente quase reencontrando uma mulher sei lá quantos anos depois, mas quando se viram quem está na porta do prédio é “só uma outra garota, jovem e recém-chegada à cidade, tentando pôr a chave na fechadura.”

Em volta desta mesa velhos e moços
Lembrando o que já foi
Em volta dessa mesa existem outras falando tão igual
Em volta dessas mesas existe a rua
Vivendo seu normal
Em volta dessa rua uma cidade sonhando seus metais
Em volta da cidade

Alice Name-Bomtempo

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Rabisco uns textos, cozinho uns roteiros e escrevo uns brownies. alicenbomtempo@gmail.com