Para Vi, de novo.

de 7 de dezembro de 2016

A sessão do Memórias em Penedo foi a primeira mais imersiva que assisti desde que você se foi. Nunca imaginei que seria tão atravessada pelo meu próprio filme. Não sei se soa pretensioso demais dizer isso, espero que não porque eu realmente não queria que a vida tivesse tornado ele tão forte pra mim. Só sei que acertei em não sentar ao lado de conhecidos, pois teria sido bem complicado explicar porque eu tava chorando de soluçar ao assistir à minha própria obra. Eu só teria conseguido dizer: “Vitória.”

Na minha cabeça só ficam repetindo as suas palavras e suas histórias, sua presença viva enquanto voz e corpo no filme, a voz da sua mãe falando da morte da sua avó. Hoje, para mim, a morte que ela conta é a sua. O mundo é tão cruel por ter dado esse significado às coisas. Por que as suas últimas palavras no filme são a descrição de uma lápide? Sei lá. Preciso parar de racionalizar tanto.

Só sei que dois dias depois, ainda hospedada em Penedo, fui pra foz do Rio São Francisco, e fiquei no monte de areia cercado por rio e mar com meus amigos por umas horas. Eu não sou uma pessoa muito de praia ou natureza mas digo com toda a certeza que esse foi o lugar mais lindo e inacreditável que já vi na minha vida. Algo para se ver antes de morrer, com certeza. Pensei que talvez você nunca o tenha visto.

Me separei do grupo e me deixei me perder sozinha naquela imensidão. Sozinha não, porque, na verdade, te levei junto. Escrevi teu nome três vezes: uma pequena, na areia úmida perto do mar, outra maior, na areia mais seca, e uma enorme, com os pés, do maior tamanho que consegui, bem no meio das dunas. Não apaguei nenhuma.

Acabei entrando num laguinho e fiquei boiando nele até perder a hora por completo. Fazia muito tempo que eu não conseguia chegar em algum tipo de estado de paz. Olhei pro céu e, pela primeira vez na minha vida inteirinha, cogitei a possibilidade de você e sei lá mais quem estarem lá.

Faltam 3 dias pra 2 meses sem você. Como sua mãe bem disse, são séculos de dor, de ausência, de saudades. Mas tento pensar que pra todos os próximos lugares que eu for, seja por mim ou pelos filmes que você me ajudou tanto a fazer, ou por outros que você não ajude fisicamente (mas vai sempre ajudar, eu sei), vou levar você comigo. Se tem uma coisa que é verdade, é que quando as pessoas morrem elas viram infinito.

Deixei um pouquinho do seu infinito naquele lago, naquela areia, naquele mar, naquele rio. E que, assim, ele vá se espalhando pelo Brasil inteiro,

para não sumir jamais.

Alice Name-Bomtempo

Rabisco uns textos, cozinho uns roteiros e escrevo uns brownies. alicenbomtempo@gmail.com

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