sábado à tarde.

de 08 de abril de 2017

pega a voluntários, vai toda a vida até a livraria travessa já ali perto do metrô. tem um livro lá que eu procuro há mais de ano mas a edição era antiga e sumida, relançaram uma nova recentemente. encontra. meio caro mas ok é de estudo, de trabalho. sai, continua, pega a praia de botafogo, toda a vida de novo. adoro essa expressão. vira na primeira rua pro flamengo, a marques de abrantes, né? sentido contrário dos carros. porra. logo de cara tem um café que eu via todo dia quando voltava de niterói, no ônibus, que tinha na parede uma tirinha do calvin e haroldo, que depois virou aquela sequência clássica deles dançando e hoje é um desenho deles numa xícara com um fundo colorido que eu acho bem feio mas eu sempre via aquela tirinha e pensava quero ir nesse café. nunca fui. nao sei bem porque. comentei sobre ele com alguns amigos mas nunca chamei nem me chamaram e é isso. cinco anos já. ok. continua na rua. toda a vida, o que você quer é ir pro aterro, onde vira mesmo? na paissandu, à direita, isso, acertou. atravessa o cruzamento, a rampa, a vista é bonita mas a graça do passeio é também tá sem celular nem nada, uma coisa meio romântica escrota saudosista de não ter com o que registrar senão a sua memória na hora e possivelmente um relato depois, e depois mesmo, porque você até pensou mas esqueceu de levar um caderninho. meio preguiça de caderninho também. pronto, aterro. minha infância. nem vou mais. por ali foi onde aprendi a andar de bicicleta, e nessas pistas eu apostava corrida com meu pai e ficava chateada quando ele ganhava e ficava mais chateada ainda quando eu ganhava só porque ele pegou leve por ter mais força e habilidade que eu. andar, toda a vida, pra esquerda, direção centro. a ideia é ir até o MAM, ponto no qual uma caminhada muito gostosa com dois amigos começou num domingo de novembro do ano passado acho. segue. pouca gente, o tempo tá fechado, é importante que você tenha levado guarda chuva até porque tinha a coisa de comprar o livro e tal, mas agora já posso te dizer que você nem vai usá-lo. à esquerda tem um cachorro implicando com um gato em cima de uma mesinha de pedra e o gato tá puto, dando patada. chatão o cachorro mas acho que ele só quer brincar. fica meio nisso até o gato pular pro chão, o cachorro correr atrás e o gato ser mais rápido e subir no topo da árvore deixando o cachorro feito trouxa latindo embaixo. ha! é meio doida essa divisão de um lado um tantão de árvore e do outro a água. não que geograficamente não faça sentido, não que eu entenda qualquer porra de geografia também, mas são paisagens esteticamente dissonantes mesmo. se você tirasse uma foto de cada, sabe. mas, sem fotos físicas hoje. desculpa, é bem bobo, eu sei. mas é bom também. na próxima, quem sabe. segue aí. cada vez menos gente, já meio escurecendo, dá um medinho mas é gostoso também. são em momentos sozinha assim que eu me sinto mais viva, sabia? sozinha em lugares sem gente, não muito feitos pra gente. não sei você. mas segue. pela beirada. olha pra água às vezes, pro lado pro centro e pro lado pra zona sul. tem uma moça na areia sozinha observando a paisagem. daria uma foto bonita também, esse chapéu branco, ela de vermelho. mais adiante, uma curva, você chegou na marina da glória. aí segue a beirada, isso. bem cheio de nada aqui, acho bonito. tem duas crianças bem pequenas, diria de uns 4 anos, brincando de pique na beirada. porra elas correm pra caralho. segue. eita. ali é o aeroporto já e… é, você pegou a ponta errada. aqui é sem saída, o MAM é do outro lado dos barcos, só tem você e uma moça de bicicleta aqui. mas tudo bem. melhor que o MAM até. Sei que você nunca tinha vindo aqui. mas melhor dar meia volta, lembra, tá escurecendo. chegando na divisória, vai andando pra dentro de novo, pra rua, pra você já catar o caminho de volta pra zona sul. você vai atravessar uma pista agora pouco movimentada e cair na glória, na altura do memorial getúlio vargas. tá rolando uma feirinha com comida e música. é tão bom cair numas coisas assim. uma vez eu caí numa feirinha enorme, também andando a esmo, quando viajava em 2014. mas essa feira é bem pequena e você não tá com fome ainda porque comeu um pacote inteiro de biscoito lá na praia de botafogo, quando tava vendo se comprava anel de coco do hippie pra substituir o de joão pessoa que você perdeu nem sabe bem como mas também o anel servia mais pra evitar que você puxe as pelinhas debaixo da unha da mão. você não deixa de puxar de qualquer forma, mesmo com o anel ou com a unha pintada. vira na rua do catete agora, seguindo pro catete mesmo. tá perto já, na verdade. tente dar um role do palácio da república, que eu chamava de palhaço da república quando era criança sem fazer ideia que isso poderia ser lido como uma crítica social foda, mas já escureceu e deve tá fechado e se você tiver paciência tá tendo um lançamento de livro no museu. tem o cinema também, que é uma bosta. na bilheteria tem um cara que talvez você conheça. ele olhou pra você também. mas eu não lembro dele não. talvez seja um flerte. ou só desconhecidos se olhando por alguns segundos. ok, já deu, volta pro caminho. rua do catete, toda vida. eu realmente gosto dessa expressão. galeria do cine são luiz, um monte de gente na parmê, e é tão bom estar sem um monte de gente com você. não ter nenhuma companhia. te falei. seguindo mais, de novo na marques de abrantes. mas pega a senador vergueiro, porque nas andanças nunca se deve voltar pelo mesmo lado da rua e, de preferência, deve-se pegar a rua paralela. quanto mais volta e mais vistas diferentes melhor. tem uma esquina nela com vários stencils de uma menina de franjinha com a mão na boca. eu adoro esse stencil e ficou bonito esse tanto junto. essa rua dá umas voltinhas, e é engraçado porque você tá bem mais acostumada a passar por ela de ônibus, no sentido contrário. ali tem um prédio que uma vez olhei apartamento e nunca esqueci da fachada porque ela é antiga e na época alguma novela da globo usava de cenário pra entrada do prédio de algum personagem. que coisa. fim da rua, tem o catarina onde já comi algumas coxinhas às quatro da manhã, e aí passando, de novo, marquês de abrantes, e vamos, lá, sozinhas, no dito café, pela primeira vez, depois de cinco anos olhando pra ele. será que a moça vai te reconhecer de ter passado algumas horas antes? às vezes te acho bem esquisita. mas se ela achou também, não transpareceu. ufa, senta um pouco. pede algo caro. você não gastou nada a semana inteira, tudo bem. tipo um milkshake, mas com café. como sempre, as duas primeiras opções de salgado que você quer não tem, mas tudo bem também porque você come de tudo. comer é bom. pronto. sentada. sozinha. com café. e tem o livro que você comprou, falei que era importante. mais ninguém, tirando dois casais ao lado que parecem falar de trabalho, um cara mais velho sozinho no lado de dentro com o computador e uma família com uma criança de dez e outra de uns quatro anos atrás, que conversam alto. é bom ouvir eles falando. a mais velha explica como uns comediantes americanos conversam como se contassem piadas incríveis mas que quando você lê a legenda não tem graça nenhuma o que eles falam. olhei pra ela, e ela pra mim. não sei se ela achou estranho. desculpa, só queria dar um rosto à voz. ela tava sorrindo. é bom cruzar o olho com desconhecidos. uma cumplicidade de poucos segundos. mas vira de volta, continua curtindo o seu momento, só seu. come com calma, bebe com calma, não tem hora nenhuma. é bom ler sozinha à mesa, sem distrações que não as do mundo ao redor. gosto dessas distrações. dá um tempinho depois de comer. ouve o trânsito. lê um pouco mais. que coisa purista isso de curtir barulho da rua e não ter celular pra falar com ninguém, eu sei. mas acho que dá pra curtir isso sem transformar num discurso de melhor ou pior, sabe? é só… se isolar do mundo, no mundo, um pouco. sinto meio isso. descobrir o seu próprio tempo. decidi que agora esse café é nosso. paga a conta, volta a andar. agora já não dá mais pra mudar muito o caminho de antes. segue por esse mesmo. outro dia a gente pensa em outro.

tem muitos.

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