A bagunça de casa é a mesma do coração

“Acolhimento é o ato ou efeito de acolher, é a maneira de receber e ser recebido, é recepção e consideração. Abrigo gratuito e seguro. É refúgio”

O antônimo de acolhimento deve ser confusão mental. É alguém puxar o tapete da minha sala, e eu, sem proteção nenhuma, cair e quebrar todos os ossos. É estar em casa e não saber onde os talheres estão guardados. Não saber programar o forno elétrico e nem conhecer a potência do microondas.

A comida está sempre queimada, mas eu nem ligo. Sempre falta água porque eu esqueço de comprar e de vez em quando a luz não acende. Os vizinhos reclamam porque eu faço barulho demais na hora de limpar o piso e porque nunca coloco o lixo no lugar certo.

A vida é agitada demais para eu perceber que minha casa não é meu lar. Na verdade, eu já até percebi, mas nunca aceito.

Hoje eu quis saber um pouco mais sobre Lar. Descobri que lar é “ local onde há harmonia, onde as pessoas vivem e sentem-se bem”. Eu não sei se concordo com isso. Eu nunca entendo a necessidade que nós temos de materializar tudo. Eu acho que a gente tira a graça das coisas sempre que tentamos transformá-las em tangíveis.

Voltando aos assuntos domésticos. Eu percebi que meu arroz nunca fica bom, mas quando você estava aqui ele sempre ficava soltinho. Descobri que meu espelho fica muito manchado se eu não usar aquele produto que nunca lembro o nome, mas que tem um cheiro incrível. Minha cama está sempre desarrumada porque eu não sei como se estica um lençol do jeito certo.

Enfim, eu percebi que falta tanta coisa quando você não está aqui. As coisas ficam tão bagunçadas. Não é a bagunça dos livros jogados e da pia cheia de louça. Nem da poeira em cima do som ou das almofadas no chão.

É a bagunça que você deixou em mim, afinal, casa é o coração de quem a gente habita e lar é onde a gente faz questão de ficar.

Você habitou o meu por muito tempo e quando foi embora eu fiz questão de não mexer em nada. Ficou tudo espalhado do mesmo jeito e sempre que alguém vem visitar eu sou obrigada a repetir:

— Pode entrar. Não repara a bagunça.

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