O dia depois do fim

No ano de 2017, mês de abril, dia 16 se discute internacionalmente em conjunto às grandes potências sobre a possível Guerra entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, dois países com uma forte capacidade bélica capaz de reduzir uma nação inteira as cinzas, cujos líderes são completos idiotas, mas idiotas com o poder de dizimar milhares de pessoas.

O clima está tenso entre as nações, as grandes redes de comunicação disputam espaço de exclusividade das notícias, diga-se de passagem, disputam o protagonismo do mensageiro da morte, mas, curiosamente, a vida cotidiana continua correndo, são poucos aqueles que tocam no assunto e se mostram preocupados com essa cena, as pessoas, em sua grande maioria, tiram sarro com as notícias e expõe sua impressão sobre a exposição arrogante do exército de Kim Jong-un da forma mais banalizada possível.

“Sociedade do espetáculo” — sim, eu pensei a mesma coisa.

14:54 da tarde no horário de Brasília:

“NOTÍCIA URGENTE!!!!!! EUA DISPARA O PRIMEIRO MÍSSIL DANDO INÍCIO O CONFRONTO ENTRE AS NAÇÕES.” — Anuncia o jornal local.

— A guerra começou, pensei.

Em seguida todos começam a falar disso nas redes sociais do mundo inteiro, todos aparentemente preocupados, os veículos midiáticos vão a loucura, o Presidente Temer logo faz seu pronunciamento, como já era de se esperar, se mantendo neutro desse conflito e reafirmando o papel diplomático brasileiro.

O restante do dia continua nesse fluxo incansável, surgem os primeiros fã clubes #TimeEUAxTimeCoreia em primeiro lugar no trending tópics internacional…

Exausto desse dia absurdamente louco:

— “São 23h da noite, estou cansado, amanhã tenho estágio e preciso acordar às 6h da manhã”

Fecho todas as redes sociais, abro o youtube, pesquiso ‘O mundo vai acabar — black alien e speed freaks’ e coloco para tocar (achei que seria uma boa trilha sonora para o momento), vou à minha mochila e abro o bolso onde guardo minha maconha e aperto um cigarro, fumo, tomo um banho, como uma banana, e então me deito e vou dormir.

Essa história de guerra se estende por muitos meses, novas nações entram na brincadeira, mais mortos, mais armas, mais inocentes, mais bombas, mais choro, mais notícias disto e daquilo na TV, o Congresso Nacional Brasileiro continua com seus escândalos, novas delações, novas listas, novos nomes, enfim, por um longo tempo estamos nós, sujeitos comuns sendo bombardeados de informações, posicionamentos, justificativas sobre o cenário internacional.

Voltemos à minha vida, cá estou eu dentro das obrigações da minha rotina, no intervalo entre aulas, no meio da tarde, direciono-me à fila do bandejão e aperto um tabaco para ir fumando, aquele cigarrinho para abrir o apetite de todo bom fumante viciado, minha vez chegou, continuo com o cigarrinho depois, almoço e estufado com aquela comida cheia de bicarbonato de sódio resolvo encerrar meu dia por ali e vou para casa, pensando melhor, vou à praia, ainda são 13h da tarde.

No caminho ao ponto de ônibus ouço de duas meninas próximas que o EUA está, naquele momento, lançando uma bomba atômica, fico assustado, como assim uma bomba atômica? Mas, é isso, vidra que segue. Ao chegar no meu objetivo, encontro um amigo barraqueiro e ele me pergunta sobre essa crise internacional, visto que eu sou universitário, sou de humanas, logo eu tenho de entender tudo e explicar isso para ele, conversa vai e conversa vem, mostro que a situação é pior do que parece, compartilho das minhas inseguranças, toco no boato sobre a bomba atômica, ele se mostra muito assustado, acho que não deveria ter falado nesse tom, enfim, quis saber, aprenda a lidar com isso, a ignorância é uma benção disse para minha mãe uma vez.

O sol está se pondo, vou para casa e continuo na minha rotina de estudos, textos para ler, seminários para apresentar, pesquisas para começar, aulas para estruturar…

2 anos depois e o mundo está destruído, as bombas atômicas contaminaram o ar, o mar, e a terra, a fauna está morrendo, a flora também, as pessoas já começam a adoecer, os pobres primeiro é claro, em seguida nem os ricos resistem.

50 anos depois não existe mais vida sobre a face da terra, o mundo como era conhecido acabou, só sobrou cinzas.

E hoje, eu acordei e fui caminhar por aí, estou localizado onde antes era considerado o território da maior nação do mundo, estou caminhando no território norte americano de olho nos destroços, vejo uma penca de bandeiras pelo chão, olho para a esquerda e vejo um edifício que costumava ser o MC Donald’s, continuo caminhando e vejo um corpo, ou o que sobrou dele, estirado no chão com uma mala cheia do lado, por curiosidade resolvi abrir e percebi que estava cheio de papel verde, que engraçado, aparentemente esse homem morreu tentando fugir e levando com ele uma mala cheia de papel.

Estou pensando para onde vou agora, estou nesse mundo há algumas dezenas de anos e já tinha me acostumado a viver assim, já sei, vou dar uma volta em outros planetas e daqui alguns milhões de anos volto e vejo se já existe vida aqui, adorei viver nesse planeta, mas até depois do fim não consegui entender aquilo que me fez ficar, por qual motivo esses seres terrestres agregam um valor tão importante a objetos materiais a ponto de destruírem toda a vida do planeta por eles?