Apropriação cultural: homenagem ou opressão?

Quando utilizar elementos ou simbologias de outras culturas se torna um problema

por Priscilla Scurupa


Recentemente, a Folha de São Paulo publicou a matéria Mundo do design e da arte vive febre em torno da cultura indígena, que relata a valorização, o crescente reconhecimento e até certo modismo envolvendo essa temática Brasil afora.

Entre os exemplos, o texto cita a mostra Histórias Mestiças, organizada no Instituto Tomie Ohtake, em 2014, pelo diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, e pela antropóloga Lilia Moritz Schwarcz; a exposição Cerâmicas do Brasil — Edição 2015, realizada no museu A Casa, em São Paulo, que tinha como mote a “requintada produção de utensílios cerâmicos” por povos indígenas e que “nas últimas décadas vem sendo também utilizada por artistas e designers urbanos”; além do jogo eletrônico Huni Kuin — Os Caminhos da Jiboia, do antropólogo Guilherme Pinho Meneses, que possibilita uma imersão nas histórias, mitos, cantos, rituais e grafismos dos caxinauás, que constituem a maior população indígena do Acre.

Além dos listados na matéria, pode-se também citar outros mais cotidianos, como o uso de acessórios, roupas, cortes de cabelo e os eventos de temática “afro” que se espalham pelo país.

Ainda que bastante distintos entre si, são exemplos que servem para confirmar uma tendência cada vez maior de buscarmos uma nova estética e discursos capazes de representar e sustentar um imaginário sobre o que significa a tal brasilidade. E esse esforço, ao que tudo indica, passa pela necessidade de (re)conexão com nossa história.


Manifestações que ocorreram no país em 2015

Por muito tempo, idealizamos um Brasil país do futebol, do samba e de um povo mestiço e cordial. Mas esse mito, como muitos vêm alertando, mostra-se cada vez mais uma falácia.

Turbulências como as manifestações de 2013, a reação de setores da sociedade a programas sociais como o Bolsa Família, as tensões raciais expostas em casos como o genocídio dos Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, ou o da peça de teatro A Mulher do Trem, em São Paulo, vêm derrubar as máscaras ao chão.

Perdidos, não reconhecemos quem somos, sequer conseguimos visualizar projetos futuros para o país. Assim, nossas origens e seus símbolos, até então esquecidos, ignorados ou vistos como primitivos, voltam a ser motivo de orgulho e fonte de possíveis respostas para reconstrução dessa identidade nacional.

Esquecemos, no entanto, que temos o passado marcado por um processo de colonização, escravidão e desigualdade, no qual negros e indígenas foram (e continuam sendo) os mais prejudicados. A sociedade brasileira nunca foi plenamente democrática e horizontal.

Capas de edições dos jornais Extra e Le Monde Diplomatique Brasil

E ignoramos, convenientemente, que explorar elementos dessas culturas sem fazer parte delas ou esvaziar seus significados para torná-las “consumíveis”, configura, sim, a tão discutida apropriação cultural.

A diferença entre apropriação cultural e intercâmbio cultural

O intercâmbio cultural é um fenômeno inevitável em tempos de globalização. Graças às novas tecnologias, trocamos informações e práticas culturais o tempo todo e em qualquer lugar. Como afirma o sociólogo Stuart Hall, na pós-modernidade “somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar”. Trata-se, portanto, de um processo que envolve troca, compreensão, igualdade e respeito.

Como seria uma festa com temática “branca”?

Já a apropriação cultural tem um viés político e é bem mais problemática, pois descaracteriza, deslegitima práticas e rituais, e torna invisíveis as lutas desses povos. Ou seja, dá margem para que elementos de uma cultura sejambanalizados, estereotipados ou simplesmente reduzidos a “exóticos”. Serve, principalmente, para manter à margem os marginalizados e garantir os privilégios dos privilegiados. Trata-se, portanto, de um processo que envolve imposição, desigualdade e desrespeito.


Como, então, distinguir e evitar a apropriação cultural?

Diversos elementos de outras culturas foram “emprestados” pela cultura ocidental, porém estão tão enraizados em nosso dia-a-dia, que fica difícil distingui-los e categorizá-los como apropriação cultural.

Meditar, praticar yoga, fazer cosplay, comer burritos, seguir ensinamentos do budismo, vestir um kimono: prestigiar ou admirar não é problema. O problema é quando um grupo dominante faz uso desses conteúdos sem conhecimento e/ou consentimento de quem tem propriedade sobre eles.

Como bem coloca um artigo da revista Everyday Feminism, precisamos nos educar não necessariamente para encontrar respostas, mas para pensar sempre e criticamente sobre essa questão.

“Temos a responsabilidade de ouvir as pessoas de culturas marginalizadas, compreender, tanto quanto possível as formas grosseiras ou sutis pelas quais suas culturas foram apropriadas e exploradas, e educar a nós mesmos para fazer escolhas informadas quando se trata de nos envolvermos com outras culturas”.

Voltando aos exemplos citados pela matéria da Folha de São Paulo, é, sim, muito importante que eventos e projetos como os citados evidenciem a presença das matrizes indígenas e africanas na produção artística e na história brasileira.

Mas também importante é que reconheçam suas particularidades em relação à visão eurocêntrica, suas influências únicas na arte moderna e contemporânea. E, principalmente, aceitem e respeitem os discursos que fazem sobre si mesmos sem esconder suas histórias de luta e resistência sob conceitos anuladores como o da miscigenação ou da globalização.


Post publicado originalmente em aliensdesign.com.br/blog.

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