A culpa do mundo

Carolina Ubalㅤ
Jul 21, 2017 · 3 min read
weheartit

Eu não acho que vá fazer sentido, mas faz frio e eu não quero esse papel. A luz que entra pela fresta aberta me confidencia que depois de hoje o amanhã encontra suas horas e maneiras de se apresentar. Suspiro. Eu não sei exatamente o que traz essa paralisia.

Sinto o sufoco quando olho para cima. É uma vida a mais? Um momento a menos? Coloco as duas mãos no meio do peito, se vocês forem corajosos, o mundo vai ajudar. Mas eu me sinto tão fraca e inútil na esperança. As coisas ficam mais frias a cada segundo em que eu estou aqui, olhando a janela, e eles estão lá, congelando na rua.

Toda vez que alguém morre eu quero me apagar. Entender o que aconteceu de errado para que a gente construísse um lar tão desigual assim. Para que no meio da tecnologia, alguém simplesmente esquecesse que somos muitos e que estamos inevitavelmente juntos nisso. Um elo que pode ser negado, mas vai continuar existindo.

E é aí que eu quase me engano. Sei dos pontos que perco com o universo toda vez que penso na maldade ao invés de me concentrar no meu papel no meio disso tudo. Veja, não adianta chorar se vou continuar na cama com três cobertores e a blusa de flanela da minha mãe. Então por que eu faço?

Acho que nem sempre a gente quer esperar. Nem sempre a gente acha que as coisas vão melhorar, que as pessoas vão entender, que o dia vai ficar mais claro, fácil. Ás vezes o desejo é pular em um tipo novo de nave espacial que nos leve a algum lugar onde todo mundo entende a importância individual, inclusive nós mesmos.

É claro que sei que não dá pra ser perfeito. Que os passos vão andar marcados de uma dor aguda, de injustiça muda por todos aqueles que morrem sem voz todos os dias, pelo menos até que a impressão suavize. Eu sei que o tempo vai se arrastar até que eu encontre um lugar para chorar essa coisa que é a injustiça e derramar um pouco do meu incontentamento em não poder fazer nada em lugar nenhum. Porque eu também entendo que estou tentando da maneira que posso.

Sei que não basta. Que a cidade não vai se encher de luz pelos meus olhos no segundo em que eu ajudar alguém. Mas é só isso que dá pra fazer. Essa é a nossa revolução. A velha história de que só através do pequeno podemos construir o grande, que nenhuma voz tem força sozinha, mas todas quem sabe.

Levanto da cama satisfeita com a minha conclusão e ainda culpada pelo tempo desperdiçado. Aí lembro do que o padre falou para protagonista da série que assisto, alguma coisa assim: o sofrimento vem de uma cobrança que só você continua a ter. Todo mundo já perdoou e entendeu, está na hora de você fazer isso também.

Desculpa por não tentar com mais vontade. É que existir me dói tanto de vez em quando.

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