Lugares comuns

A primeira coisa que notou nele foram as unhas compridas. Imaginou-o arranhando as costas dela na hora do sexo. Ela devia gostar. Não comentou.

Estavam num bar perto da Avenida Paulista, conversavam sobre os últimos livros lidos, a última viagem dela para Minas, o tempo seco. Era um dia comum, quarta ou quinta à noite. Ele esperava Lívia sair do trabalho, voltariam juntos para casa.

Ela ouvia com atenção o que ele contava, eram muito próximos desde a faculdade. Acabara de falar do enteado — o menino morava com o pai no Rio, não queria passar as férias de fim de ano com eles, como de costume. Acompanhava o drama da família classe média separada pela distância enquanto tentava ler as entrelinhas.

Confiavam um no outro e se encontravam com frequência, em geral, quando ela não fazia hora extra no jornal. Nunca perguntava nada de forma direta. Deixava-o falar à vontade — ele sempre contava tudo, ou quase tudo. Gostava de ouvir sobre Lívia — as manias, as histórias, brigas e confusões cotidianas.

Nas festinhas de república, bebiam e conversavam. Havia algumas faíscas, fogo, nunca. Tinha curiosidade de saber como teria sido.

Antes de pedir outra cerveja, perguntou se ela andava “aprontando muito”. Respondeu que não. Os caras do Tinder eram muito escrotos, fora isso, o tempo andava escasso, o jornal a consumia demais. Ele achou graça. Por mais corrida que fosse, a vida só valia pena com amor e sexo — concordavam desde sempre.

Quando estavam terminando a cerveja, Lívia chegou. A maquiagem escondia as manchas do rosto, mas não as olheiras.

Beijou-a no rosto, observou-a dar um selinho no marido e depois puxar uma cadeira de outra mesa.

Ele perguntou sobre as aulas. Lívia comentou que fora tudo normal, como sempre fazia. Queixou-se da falta de atenção dos alunos, quase todos usando o celular durante a aula. Não tinha mais forças para protestar, só dava as aulas e pronto.

Baixou o olhar e notou a meia-calça da esposa do amigo. Uns cinco centímetros desfiados na coxa. Voltou o olhar para a mesa e depois para Lívia — cansada e infeliz, concluiu. Lívia olhou para ela como se questionasse “o que foi?”, sorriu e buscou a mão do marido sobre a mesa. Perguntou se ela ainda trabalhava no jornal.

Sim, no jornal. A mesma coisa de sempre.

Não havia mais cerveja. Cogitaram pedir mais uma, mas Lívia precisava preparar as aulas do dia seguinte.

Ela se levantou para ir ao banheiro e surpreendeu-se quando Lívia disse que também precisava ir. Foram juntas. Ele permaneceu na mesa, olhando o movimento da rua.

Caminharam até o metrô. Despediam-se na plataforma da Consolação quando o trem chegou. O casal iria para a Vila Madalena e ela, para a Paraíso, então ele a abraçou forte e a beijou, roçando a barba por fazer em sua pele ressecada. Lívia também a abraçou forte e se beijaram de um jeito afobado, o cabelo de ambas esvoaçando.

Deu uma corridinha, embarcou e se sentou. Observou os dois pela janela. A mão dele no ombro dela, a mão dela na cintura dele. Eram tristes e bonitos. A luz vermelha começou a piscar, o sinal soou, as portas se fecharam. Ela sorriu e acenou. O trem partiu, continuou sorrindo por mais alguns segundos.

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