Na hora rimos e eu fiquei um pouco preocupada com aquilo. Afinal, tinha um cemitério, um caixão e uma perda. Digamos que o cenário não condizia.

Na verdade, não rimos, gargalhamos! Alguns nos olharam assustados. Incrédulos, talvez. O fatídico aconteceu enquanto subíamos o Serro do Massacará, acompanhados do meu avô, que naquele momento se despedia de nós.

O som das gargalhadas ficou por muito tempo martelando em meus pensamentos: éramos uma família de sádicos, insensíveis, me perguntava. A resposta era sempre não, pois a perda era tão real quanto nos era tão peculiar o riso.

Até ali, tínhamos passado 100 anos sob a existência física do patriarca. Uma convivência cercada de muita disciplina. O manual de regras orais era infinito: como lavar as mãos, os pratos, sentar à mesa, agarrar o talher, o copo, que horas beber água, tomar banho, como posicionar a mão para passar rodo no piso, o carro entrava na garagem sob as marcas da vez anterior, posição do cadeado no portão - atente-se! - sempre com a abertura para dentro, retorne os objetos utilizados na mesma posição, olha o chuveiro pingando, vocês estão sempre atrasados, articule as palavras direito, levante a coluna enquanto lê.

De modo que, naquele dia, quando meu tio incorporou o personagem e corrigiu os carregadores do caixão sobre a falta de retidão, sob pena de que meu avô - ainda que sem respirar - reclamasse, aquilo fez tanto sentido que todos riram. E se ajeitaram. E gargalhamos em regime de cumplicidade.

Daquele momento inusitado em diante, com o riso abraçado ao fim, continuei desfrutando dessa memória, oscilando sempre entre os sentimentos de culpa e de pertencimento.

A explicação, e com ela a redenção, só veio algum tempo depois. Comprei um livro, tão inusitado quanto, que se intitulava um manual humorístico. Lá dentro dizia: "o riso subverte o medo, é uma convulsão física violenta, tem má reputação e afinidades suspeitas com a loucura". Não restava dúvida. O autor havia se inspirado no enterro do meu avô.


##O livro citado é de Ricardo Araújo Pereira, ‘A doença, o sofrimento e a morte entram num bar — Uma espécie de manual de escrita humorística’.