Por mais fios de cabelo na comida

Aline Braga
Aug 25, 2017 · 3 min read

Ah, se os relacionamentos se resumissem a um dia de empanadas! Seria pura diversão e sacanagem. Tudo começou quando tiveram fome e decidiram se abrigar e pegar a calle Duarte Quirós, direto para o Afonsina, número 66. Uma fila enorme os esperando a esperar.

Olharam ao redor. Ele sugeriu que fossem no restaurante em frente. Evitaria caminhar mais, esperar mais para comer. Além de que deixariam registrada que a vontade original era comer humita e cantar folclore argentino.

Entraram no plano B e sentaram numa mesa ao fundo. Parecia que outras pessoas também estavam ali em protesto à fila do Afonsina. Pediram empanadas. Conversaram enquanto esperavam. Talvez tenham pedido uma cerveja também.

A comida finalmente chegou. Porém, com um ingrediente a mais que saciaria a fome de diversão daquela noite. Na primeira empanada que ela abriu, se confirmou que aquele restaurante estava estrategicamente localizado para suprir a falta de qualidade, evidenciada nas paredes e na falta de decoração.

Ela mostrou a ele o cabelo que encontrou dentro na empanada. Se irritaram e riram. O que fariam com aquilo?

Ai, tanta espera e desgosto. Discutiram possibilidades de outros restaurantes, mas tinham fome. Então, seguiram o combinado: foram abrindo e comendo cuidadosamente as outras empanadas, enquanto a do cabelo esperava num canto a hora do grande show. Não tinham mesmo mais nada para fazer.

Olharam um para o outro, certificando-se de que o discurso estava decorado, que já tinham comido todas as outras, e ela entrou em cena:

- Por diós! No lo puedo creer!! Un pelo en la empanada! - gritou alto o suficiente para que os outros clientes pudessem ouvir.

Ele, devidamente assustado com a terrível surpresa, pediu para confirmar, puxou o prato dela e deu sequência ao ultraje.

Todos já estavam olhando, e a atendente já se aproximava.

- Que pasa, señores?

- Mirá vos con tus propios ojos! - disseram. Hay un pelo, un pelo!!!, en la empanada!!

Começou a confusão!

Seguiram o discurso sem dar uma risada. Todo mundo ao redor no bochicho. A cozinheira apareceu de lá de dentro para se certificar da tragédia. Os dois, in-dig-na-dos; os demais clientes pedindo a conta.

Agoniadas, elas decidiram recompensar: outra porção de empanadas. Rejeitaram. Como agora iriam confiar? E olhavam um para o outro incrédulos, cínicos, com o sucesso daquele plano moleque e sem vergonha.

Ao menos não haviam inventado o cabelo.

Pagaram a conta, fizeram sua melhor cara de decepção e andaram len-ta-men-te até a porta, olhando firme para os poucos clientes que restavam nas mesas como quem pergunta: Vocês vão mesmo ficar aí?

Passeando depois pela cidade... Como riam. Como eram bons naquilo. Que êxtase ser uma dupla sem vergonha. Como gargalharam aquele dia. Nunca se esqueceriam da cara de pavor da atendente. Não que tenha sido a primeira vez que ela viu cabelo naquelas empanadas. Com certeza era admiração pela brilhante performance.

Passando hoje pela Duarte Quirós, ela relembra e se diverte sozinha, se dando conta, ao mesmo tempo, de que não é possível partilhar essa memória. Como é triste que as decepções amorosas impeçam os ex-casais de reviverem inclusive momentos como esse, de pura amizade. Pudesse, ela chamaria os atuais amantes de ambos para jantar, brindariam por aquele dia e continuariam se divertindo, quem sabe, tramando, numa grande roda! Tim-tim.

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Aline Braga

Written by

Jornalista. Contista. Cronista.

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