8 — Meu passado não me condena, e sim me ajuda.

2014

Era dia primeiro de abril e eu estava afundada no que eu chamava de depressão. Eu não queria comer nada, e minha mãe disse que se eu continuasse daquele jeito, ela chamaria o conselho tutelar para mim. E foi dito e feito, ela chamou. Embora eu tenha demorado a admitir e até hoje torça o nariz pra isso, eu estava passando por uma fase ruim: só queria saber de chorar e remoer a vida que estava levando. A conselheira chegou em casa e perguntou de mim, apareci, minha mãe contou algumas coisas, a mulher falou comigo sobre como eu poderia melhorar e blá-blá-blá, recomendando encaminhamento a um psicólogo — quer dizer, falou comigo indiretamente, porque todo o tempo ficou mais voltada à minha mãe.

Depois, também tive que ir na sede do conselho tutelar conversar — me acompanharam minha mãe e meu padrasto. Passei por consultas com uma psicóloga por um tempo, o que me ajudou a melhorar. A profissional indicou remédios para amenizar a minha situação mental. Minha mãe me comprou remédios, mas por fim descobri que não passavam de suplementos e vitaminas, como sulfato ferroso. Minha mãe e meu tio tramaram tudo, considerando que aquele meu estado fosse apenas uma melancolia temporária e com medo de eu ficar dependente de medicamentos. Recebi-os já dentro de um pote não original, de guardá-los, sem rótulo. Eu simplesmente acreditei. Hoje isso é até engraçado. Acabei sendo “vítima” do efeito placebo, porque eu realmente acreditei que aqueles “remédios” me ajudaram a melhorar.

Nesse meio tempo, vim para a Bahia ver meu pai, era Copa do Mundo e férias do meio do ano. Quando voltei a São Paulo, já estava ótima.

2015

Em novembro, estava me preparando para ir a uma festa de aniversário de uma amiga, a Iasmin. Seria à noite e iriam praticamente todos os meus amigos. Me arrumei e fui pra casa do meu amigo Matheus (mais conhecido como Nigga), onde meus amigos iam se reunir pra ir pra casa da aniversariante.

Com um namoro recém-terminado, eu não estava a fim de ficar com ninguém, estava um pouco desanimada.

Chegando à casa da Iasmin, fomos jogar truco, como de costume. Terminado o jogo, o pai da Iasmin trouxe algumas bebidas. Tinha dois amigos do Matheus, então ele chegou em mim e disse que um deles queria ficar comigo, “o de blusa branca”. Olhei o cara e disse que eu não ficaria, mas Matheus já tinha dito para ele que eu ficaria (tudo estratégia…), e eu tive que ficar, pois eles falaram “ou você fica ou você fica”. Hoje fico pensando em como caí de patinho…

Depois, todos os meninos ficaram zoando que eu havia ficado com ele. Alexandre era o nome desse menino. Eu nem o conhecia, e não tinha vontade de conhecê-lo, ele não me agravada — seus assuntos, suas conversas, suas atitudes não me agradavam. Tudo dele me irritava, eu não queria me envolver com ele de nenhuma maneira, afetivamente, longe disso, queria distância, para mim só um beijo, já foi o suficiente. Mas no dia seguinte à festa, Alexandre pegou meu número com Matheus e começou a conversar comigo pelo Whats, a me chamar de menina má por causa do meu status, que estava com uma frase da música da Anitta, isso me irritava, eu ignorava ele de todas as formas — quando eu estava na casa do Matheus, por exemplo, falava pra ele dizer que eu já tinha ido embora.

Passamos a conversar mais pelo Whats, todos os dias. Mesmo eu ignorando-o muitas vezes, outras vezes tratando-o mal, ele persistiu, e fui começando a aceitá-lo como uma pessoa legal, e aí fomos virando amigos virtuais.

Eu não queria ter nada com ninguém, pois em todos os meus relacionamentos passados eu pensava que estava amando o garoto e nunca era isso; depois de um mês ou até uma semana de namoro, eu descobria que não era nada disso, que realmente era só fogo de palha, e eu não sentia nada pelo menino e enjoava dele rapidamente, fazendo com que tudo acabasse mais rápido até do que começou.

Chegaram as férias, todos os dias eu ia para casa do Matheus, que é um dos meus melhores amigos, sua família toda gosta de mim. O Alexandre sempre chegava na rua assim que eu chegava — os meninos até brincavam dizendo que ele pagou a irmã mais nova do Matheus para avisá-lo quando eu chegasse. Assim, começamos a conversar mais e mais, descobrimos que somos muito parecidos, que nunca havíamos gostado de ninguém, não temos ciúmes. Ele virou um grande amigo, fiquei um tempo sem ficar com ele, só conversávamos e víamos que nos dávamos bem.

Durante os dois meses de férias, fomos nos aproximando mais e mais, ele foi muito paciente, pois esperou um tempo só com minha amizade. No início, para mim, ele só queria me usar para conseguir o que a maioria dos homens querem… Mas aí fui conhecendo seus princípios, suas verdades, e vendo qual era a verdade.

Foi aí que ele disse que gostava de mim. Nesse dia surtei, pois para mim isso nunca ia acontecer. Todos diziam que ele era apaixonado ou que gostava de mim e eu nunca liguei, nem cogitava a ideia, pois para mim isso não era verdade, já que ele tinha dito que nunca tinha gostado de ninguém a vida toda, por isso me convenci que realmente ele não chegaria a gostar de mim. De minha parte, nem cogitava gostar dele de jeito algum, por tantos enganos, o que hoje me leva a dizer só o que tenho certeza de sentir. Eu avisei para ele que eu talvez nunca chegasse a gostar de ninguém, e nem dele, por sinal, mas ele disse que me conquistaria, sim, que era só questão de tempo.

Parece que acabou conseguindo, né?

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