2 — A chegada e os primeiros dias

Fachada do Aeroporto Internacional de Salvador

Mal pude acreditar que meu pai tinha dado aquele furo comigo, de me deixar à deriva no aeroporto. Buá! Cheguei a me sentir desprezada por alguns instantes, mas, conhecendo um pouco a figura, logo encarei como natural e me senti melhor. Paciência.

Fiquei ali sentada numa das cadeiras à espera de alguém. Pra meu desespero, passaram-se duas horas (!), e continuei ali sentada, esperando alguém aparecer. Liguei novamente pra minha mãe, que me informou que demoraria mesmo alguém a chegar e que provavelmente quem apareceria primeiro seria a mulher do meu pai, Maria.

Meia hora depois, finalmente minha madrasta chegou. No ônibus, a caminho da casa dela, passamos por cada paisagem linda de Salvador, cada praia magnífica, com aquele sol quente, que não é muito costumeiro em São Paulo. Observo as pessoas que entram e saem do coletivo, algumas mulheres muito estilosas, negras com vestidos à moda africana, seus cabelos black assumidos; vi uma família reggae, pai, mãe e filha com os cabelos de dreadse roupas largas — o cabelo do pai ia até o joelho!

Após mais ou menos uma hora, chegamos em casa e finalmente reencontrei meu pai, com aquela roupa simples, como de costume. Ele me abraçou e sussurrou ao meu ouvido “minha filhinha querida”. Revi Verônica (irmã da Maria), ela me deu um abraço forte e me disse “seja bem-vinda”. Revi também Mariana (filha da Maria), agora com seis anos, a percebi desconfiada, provavelmente com ciúme por causa da minha presença na casa.

Coloquei minhas malas na cozinha, peguei um par de roupas e toalha e fui tomar um banho, enquanto Maria fazia um lanche pra mim. O banho foi mais demorado que de costume, meus pensamentos voltaram a fervilhar, me senti insegura com tudo novamente, mas logo a insegurança foi substituída por pensamentos positivos e esperançosos, pois pensei que essa nova experiência de vida será ótima, cheia de histórias, e o que vier de ruim servirá de aprendizado.

Ao sair do banheiro, meu pai me convidou pra ir até o centro comercial, que fica uma rua acima, pra comprarmos algumas coisas pra mim. No caminho, entramos numa adega, meu pai cumprimentou o homem no balcão como um velho amigo e me apresentou a ele como filha. De canto, três caras conversavam amenidades, mas logo se viraram pra nós, um me lançou um olhar cobiçador e disse: “Nossa! Que filha bonita essa sua, hein?” Imediatamente, corei, senti meu rosto realmente quente.

Sem nos demorarmos na adega, logo estávamos na rua novamente, meu pai sempre andando apressadamente como sempre e falando coisas das quais não compreendi a metade. É nítido que ele conhece muita gente, então, onde quer que andemos, ele me apresenta como sua filha; e o gozado é que ninguém acredita que isso pode ser possível; as pessoas sempre falam: “Como um cara feio igual a você pode ter uma filha bonita assim?”

***

No outro dia acordamos cedo e fomos à casa de um tio meu que mora mais ou menos perto. Meu pai foi a pé comigo. Chegando lá, fomos atendidos por uma prima minha que eu ainda não conhecia, Rafaela, e assim revi minha outra prima Leandra e minha tia Noêmia, meu tio não estava em casa. É uma casa de pessoas de classe média baixa, mas bem-acabada e arrumada, até charmosinha. Na sala tinha um grande sofá confortável, feito de madeiras rústicas à mostra, onde batemos um papo sobre interesses.

O tempo corria e a própria conversa nos deu um pouco mais de fome, aí fui intimada a comprar umas coisas para o almoço, com a Leandra.

O almoço estava gostoso, bem à moda baiana, com comidas fortes e apimentadas. Logo em seguida, começou, na TV, o jogo do time local e os homens foram assistir. Nesse momento meu tio já havia chegado, e, como ele parecia torcedor fanático, acabou inflamando meu pai a ficar e assistir também. Como parecem irracionais as discussões desses homens relacionadas a futebol, né? Enquanto eu conversava com a Leandra sobre um namoradinho dela, de vez em quando eu voltava mais meus ouvidos praquelas falas altas e até xingamentos, mas não conseguia entender nada. Acabou o primeiro tempo e meu pai quis assistir ao segundo tempo em casa, mas quase meu tio não nos deixou sair, numa espécie de chantagem a meu pai, dizendo que ele só iria porque já sabia que o time dele ia perder de goleada e fazer vergonha. Bobagem.

Na volta pra casa, fomos de ônibus. Com o domingo chegando ao fim, meu pai começou a falar da minha matrícula na escola. Poucas vezes o vi falar de maneira tão séria, com interesse em algo relacionado a educação como nunca percebi, e até de igual pra igual. Talvez ele realmente estivesse assimilando que eu não era mais uma garotinha que morava com minha mãe, que a filha dele estava ali com ele, que precisava estudar, que precisava de outras coisas pras quais ele teria que contribuir. Enquanto ele falava sobre escola, comecei a imaginar como seriam meus colegas, os professores, as salas, o clima, enfim, todo o ambiente em que também conviverei por um ano. Como será a primeira semana e, principalmente, como será meu primeiro dia de aula na nova escola?