3 — Os primeiros dias na nova escola

Escola

Chegou segunda-feira, acordamos de madrugada e fomos pra onde realmente eu ficaria, em Candeias, cidade vizinha a Salvador. Pegamos o ônibus e logo chegamos à casa de uma amiga do meu pai que aluga quartos, inclusive pra ele. Ficarei na casa dela. Ela mora sozinha. Fico louca quando pergunto do Wi-Fi e ela me diz que não tem…

A quarta-feira foi meu primeiro dia de aula. Entrei na sala, sentei e fiquei na minha, até porque não poderia ser diferente, pelo menos nos primeiros minutos, ou mesmo no primeiro dia. Todos já se conheciam, eu não conhecia ninguém, obviamente. A professora perguntou de que escola eu tinha vindo, falei que de São Paulo. Alguns olharam surpresos e falaram entre si, me perguntei o porquê dessa reação, mas logo entendi.

Estou atrasada com o conteúdo, pois cheguei em março — tenho o conteúdo da escola que estudei no começo do ano em São Paulo, mas não vale nada na nova escola.

Cerca de dez minutos depois da pergunta da professora e de olhares de curiosidade de todos os lados, algumas meninas muito educadas me deram bom-dia e puxaram assunto comigo. Todos que falam comigo reparam meu sotaque paulista e eu reparo o deles, baiano. Reparei algumas diferenças na escola de São Paulo e as daqui, que são bem menores; essa que estou tem apenas cinco salas de aula, mas cada uma tem televisão, ventilador, a minha tem ar-condicionado, a lousa é de caneta e o horário de escola é menor, começa às oito da manhã e vai até meio-dia. Já as escolas de São Paulo são grandes, umas chegam a ter quinze salas de aulas, têm biblioteca, quadra de esportes, algumas tinham salas de vídeo, outras com ventilador, a lousa é com giz e o horário é das sete a meio-dia e vinte. Até eu conseguir me familiarizar com essas diferenças será um pouco difícil, mas certamente conseguirei.

Algumas meninas me explicaram a matéria assim por cima mesmo, pois teria uma prova de matemática no mesmo dia; eu teria que fazê-la, teria que me virar para conseguir recuperar a matéria perdida. Chegou a hora da prova e uma garota me avisou que a professora não viria, que estávamos liberados. Ufa! Me livrei dessa pressão e respirei mais aliviada, porque pelo menos terei um tempinho pra conhecer o conteúdo e me preparar.

Na semana seguinte teve aula só de segunda a quarta, por causa da Semana Santa. E na segunda acabou acontecendo a prova de matemática adiada da semana anterior. Tive algumas poucas dúvidas, mas, com a ajuda que as colegas me deram ao cederem o material pra eu ver e me explicarem algumas partes, me saí razoavelmente.

Na aula seguinte, a professora de português me olhou com um leve sorriso, me perguntou se eu era a Anne, então me disse que fui a melhor na prova da semana anterior! Também, pudera, pois passei duas aulas fazendo-a e fui a última a entregá-la.

A segunda semana foi passando e fui pegando mais afinidade com algumas garotas da escola; já tenho algumas no Facebook, elas são bem legais. Diferentemente de São Paulo, todos dão bom-dia para todos. Achei bem engraçado que muitos falam pra mim “bom dia, novata”.

Numa noite daquela semana fui ao encontro do meu pai, que estava conversando com um amigo. “Rapaz, não vieram me dizer que ela — meu pai passa a mão na minha cabeça — veio fugida de São Paulo, que tava namorando um bandido e teve que vir às pressas de lá?”. O amigo do meu pai balançou a cabeça em desaprovação. Eu comecei a rir da situação, pois sei que o povo fala demais mesmo.

Mas quem diria que eu seria o alvo desses linguarudos, hein? O que mais inventarão a meu respeito e por quantos desafios mais ainda passarei? Veremos…

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