Sobre o seu Zé.

Escrevi essa crônica no ano passado para o coletivo de escritores que fazia parte, o 100 cueca. Achei melhor publicar aqui também.

Olha como são as coisas mermão.

Eu tava lá, perto de casa e os canas vieram. Vieram com papo que eu panfletava na Rua Augusta contra a ditadura. Mermão, eu não seria tão burro.

Viram um carro parecido com o meu na frente de uma lanchonete e falaram que era eu. Vieram com testemunha e tudo.

Tomei choque no cu. Fiquei em pau de arara. Arrancaram as unhas da minha mão.

Eu entrei nessa onda porque um colega da escola foi preso. Achei injusto aquilo. Ele era idealista, cara maluco das ideia, mas era gente boa. A polícia levou ele pro DOPS e nunca mais soubemos dele. Depois, quando fui preso, vi o nome dele na parede. Que situação cara. Chorei por três dias porque sabia que eu também seguiria o mesmo caminho.

Mas sei lá, acho que na fila de Deus, ele escolhe quem morre, quem sobrevive. Quase morri umas três vezes, mas tô aqui pra contar história.

Sinto dores fortes de cabeça até hoje. Cê acredita que ainda sonho? Tinha um guarda lá que era ruim, bicho. Ruim desses que quanto mais gritava, mais ele gozava. Eu me coloquei na situação do cana várias vezes e não tenho estômago pra ver gente sofrendo não. O cara ganhava pra bater, espancar, matar.

Lá, a pior parte era o barulho da chave, porque ali já era a tortura. A chave abria de-va-gar. Hoje em dia, só de ouvir o tintilar de chaves, já arrepia as costas.

Tinha uma mulher que voltou certa vez sangrando muito. Ela morreu naquela noite, perto de mim. Dá pra ouvir a morte, cara. Não tô brincando. O último suspiro de alguém é o pior som que já ouvi. Ela se libertou ali. Deixou dois filhos pequenos. E depois soube que o marido também morreu. Tu tem noção a cabeça dessas crianças?

Eu nunca botei a mão em uma arma. Só escrevi uns textos contra a ditadura. Nunca panfletei. Nunca fiz nada disso. E ainda tem gente que me chama de bandido e fala que a ditadura não existiu. Mano, ó as ideia.

Nem vejo mais ninguém daquela época. Os que não morreram, contam histórias. Eu passei por três lugares diferentes, conheci muita gente. É foda, porque a gente se reconhece. Não sei explicar, é algo no olhar. Algo que só a gente sabe o que passou.

O que eu acho hoje? Sério, cara, tem que ficar de olho nessas coisas aí, pra história não se repetir. Prender pessoa que tá lutando por algo, por desobediência, é coisa de ditadura. Repressão de manifestação é coisa de ditadura. Tô vendo a história se repetir e elitizinha fica na janelinha batendo panelinha quando algo aperta pra eles. Tem que se ligar mermão.

  • Seu Zé é um personagem fictício, mas poderia ser real.

Post original: https://www.100cueca.com/single-post/2017/03/07/Entrevista-com-o-seu-Z%25C3%25A9