Ap 904

Era tão fácil quando eu passava pelo prédio alto de cor azul e logo tocava o interfone avisando minha chegada. Era muito mais fácil quando você me deu uma cópia da chave com um chaveiro de bolinha amarela e um coração vermelho.

A rotina de comprar pizza, chegar lá pelas 20h, tomar um banho e te esperar parecia um sonho. Nesses teus 15 — quase 20- minutos de atraso, eu aproveitava para regar as plantas e até dar uma conversadinha com elas. Coisa que você nunca fazia. Até hoje não sei como teu gatinho sobrevive.

Começou a ficar difícil quando tu chegava estressado do serviço, trazendo tarefas nada agradáveis pro meio do nosso lençol percal 400 fios. Começou a ficar bem mais difícil quando o teu mundo girava na administração de uma empresa, inclusive em feriados e finais de semana. De repente, eu estava ali apenas de corpo presença.

Não fui colocada em segundo, mas em terceiro, quarto plano. Os momentos de risadas ficaram cada vez mais espaçados. Quer dizer, as conversas passaram a ser periódicas. Contato físico? Esfriou. A gente esfriou.

Logicamente, do jeito que íamos não dava mais. Hoje passo pela calçada do prédio e olho pra cima. Imagino como anda o nono andar e todas as suas confusões matinais por conta dos cachorros do vizinho.

Olho pra cima e lembro como era fácil. Por um momento o movimento quase que automático me fez levar a mão ao interfone.


Quem é?
Opa. Acho que me enganei de apartamento.

Um grande silêncio ecoa entre nós, minha garganta torna um nó. Um ano depois, será que ainda é possível reconhecer minha voz?

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