Capítulo 5

É engraçado pensar que 10 anos atrás eu estava me formando no ensino médio. Aquela época era legal, eu tinha uma namorada. Hoje tenho meio maço amassado junto de uma nota de 50 reais e esses são os pontos altos da minha semana.

Enquanto me sento em frente à máquina de escrever, um gato cinza aparece na minha janela, murmurando por atenção. Me vi ali. Escondi as palavras ruins que queriam saltar e voltei aos pensamentos da minha época juvenil.

Éramos todos iguais se vistos no uniforme branco com verde. Talvez até iguais em alguns pontos de adolescentes, tais como brigas com os pais, notas razoáveis, a vontade de ir para a educação física.

Hoje, mesmo que se nos colocassem uniformes, estamos todos diferentes. Exemplo de um dos meus maiores amigos: casado, viajando o mundo, feliz profissional e pessoalmente. O ponto alto da semana dele com certeza foi a viagem rapidinha pro Caribe, ao contrário do meu humilde maço de Marlboro.

Me tornei um fumante, viciado em café, que passa a maior parte do tempo em um quarto escuro escrevendo ficção. Por ficção eu digo: histórias que eu gostaria de ter vivido. Talvez seja essa minha válvula de escape para não enlouquecer. Tenho total consciência dos meus problemas de socialização, da minha depressão. Mas talvez seja melhor viver dentro das páginas, especialmente na 104.

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