Escritos de ônibus

Quem me vê no ônibus, me vê escrevendo e vai ser sempre assim. Antes eu odiava as conversas altas, o burburinho que por vezes ultrapassava meus fones de ouvido e acabava atrapalhando o “take me out tonight”.

Hoje em dia não vejo tanto problema. Não que eu seja fofoqueira, longe disso. Apenas gosto de ouvir os casos e dar meus conselhos mentalmente. Quando as conversas cessam, o barulho do ônibus lento me faz viajar nos mais profundos pensamentos. As luzes da cidade logo se acendem, e eu apago.

Essa facilidade para dormir em qualquer lugar — realmente qualquer lugar — é um ponto positivo para aguentar às 4h diárias dentro de um ônibus. Posso dizer que grande parte da minha vida É dentro do transporte público.

É nele que tenho meus maiores amores de 2 ou 3 paradas, minhas crises existenciais e até meus escritos mais profundos. Nesse momento, enquanto escrevo essa crônica de fim de tarde, um homem se aproxima de mim.

Licença?

Toda. Toda mesmo. Ouvir dos fones dele um clássico dos anos 80 não será um incômodo, pelo contrário. Novamente, não me importo mais se estou sem fones. Se estivesse usando não despertaria interesse no rapaz ao lado.

A única coisa que ainda me agonia é o barulho das portas que abrem e fecham. Ainda mais quando ele desce por elas.

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