Me apaixono todos os dias

E não, não é pela mesma pessoa. Acho genérico demais essa coisa de rotular paixão, sentimentos e todas as demais veias do amor. Também acredito que a vida é muito curta para não se deixar apaixonar todos os dias. “É uma palavra muito forte, não banalize”, já ouvi. Ora pois, eu me apaixono por diversas coisas todos os dias. Pelo bom dia que recebo de um amigo distante ou pelo simples atendimento de um vendedor querido. Pelo dia ensolarado ou pela chuva quando está muito quente. E ontem me apaixonei por um cara no ônibus. Podem dizer que é superficial ou que isso é normal, acontece todos os dias. Mas eu não me apaixonei por suas características físicas. Me apaixonei pela paixão dele.

Eram quase oito horas da noite e o coletivo estava tomado por um sentimento comum, o cansaço. Uns liam jornais, outros olhavam pela janela esperando enxergar logo seu destino. Ninguém falava. Até que o silêncio do ambiente foi invadido por um rapaz de cabelos encaracolados. Como quem não quer nada, escorou-se no meio do ônibus. Carregando consigo um violão roxo igualzinho a cor do apartamento da Mônica em FRIENDS, ele arranhou um acorde, Sol menor, e, ao mesmo tempo, trouxe à vida o clássico de José Fernández Diaz.

— One guantanamera, Guajira, one guantanamera

Cantando com a alma, ele sorria com seu olhar. Sim, se você já viu alguém sorrir com os olhos, sabe como é. A cantoria despertou olhares curiosos para o jovem com camisa branca e algumas fitinhas no pulso. Também provocou risadas e cabeças balançando em sinal de desaprovação. Eu continuei prestando atenção na música cubana e, sem me importar com os outros na minha volta, até cantei um pouquinho. Encerrado o repertório, a apresentação: Estudante de teatro na federal, Pedro largou o antigo emprego para ficar viajando e, claro, cantando.

— Se você não gosta, respeito, só quis trazer cultura a essa viagem — ele finalizou com sorriso simpático.

Não é uma história de vida daquelas clichês e emocionantes, mas fiquei realmente encantada com a simplicidade e alegria no que ele faz. Não importa se vai ganhar alguma ajuda financeira, ele ama o que faz. Já viajou para Argentina, Uruguai, e pretende continuar seguindo. Me apaixonei pela decisão em seguir seu sonho. Me apaixonei por toda essa paixão dele.

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