O molho de tomate e as reflexões inacabadas sobre o Instagram

Há um mês atrás apaguei mais uma vez o aplicativo do Instagram do meu celular. Eu já tinha feito o mesmo umas quatro ou cinco vezes, mas essas saídas duravam pouco mais de uma semana. A primeira vez que apaguei lembro de ter atribuído ao fato de que estava me fazendo mal e pq estava usando demais, daí quis fazer um detox. Essa sensação me perseguiu, mas foi ganhando novas camadas cada vez mais profundas e, chato de admitir, algumas vezes julgadoras.

A pergunta “pq eu passo tanto tempo aqui?” começou a ser substituída por uma macro pergunta que engloba tantas outras pequeninhas: “mas pq estamos e usamos o Instagram? qual o objetivo?”. Lembro da minha mãe uma vez ter me perguntado o objetivo dessa rede pq ela realmente não sabia e confesso que me bati pra explicar. Acabei respondendo que era uma forma de troca, de referências, de interação/relacionamento. A verdade é que essa resposta me deixou meio envergonhada pq não senti que eu fazia algo útil nessa rede ou que me fazia bem. Pensei em poucas pessoas que lembrei que usam o Instagram com um propósito.

Mas tem que ter propósito? Em algumas conversas percebi que talvez eu estivesse sendo chata demais e querendo dar significado pra tudo (insuportável, mas meu jeitinho ultimamente). Tentei levar as perguntas pro meu debate interno e observando as pessoas mais próximas de mim. Eu, por exemplo, me senti sendo sugada muitas vezes vendo Stories, me senti tóxica stalkeando pessoas, me senti podre julgando alguém por uma foto, me senti perdendo tempo de vida real, me senti muitas vezes rasa usando essa referência pra me embasar na construção da imagem de uma pessoa. Inclusive, descobri que uma pessoa que estava distante de mim, me via como alguém que havia mudado e agora era super paz e amor. Fiquei assustada. Ué, como eu fui construindo essa imagem de forma tão inconsciente? Como nós nos permitimos construir essas conclusões baseado em postagens?

Sinto que o mundo, a era de aquário, zeitgeist, seja lá que nome quisermos dar pro contexto atual, nos levou pra uma crise profunda sobre o ser. Gastamos energia pensando num feed bonito (ou seguindo uma tendência atual do jovem porto alegrense, bem trash), fazemos stories pq queremos que fulaninha veja, pensamos em bons horários pra postar uma selfie que só ficamos satisfeitos depois de 15 tentativas, precisamos dos likes e comentários (o biscoito) pra nos sentirmos melhor com a nossa autoestima. Precisamos dessa ajuda pra construir nossa imagem e nos sentir próximos das pessoas. Eu sinto que o Instagram dá essa sensação boa de estar por dentro.

Ao mesmo tempo que reflito tudo isso, também vejo como uma ferramenta que pode atuar exatamente de forma contrária quando comunicamos coisas importantes e que podem ajudar a jornada de outras pessoas, para pessoas que estão fazendo o corre profissional, como um grande álbum de recordações, pra simplesmente se divertir… Enfim, muita coisa pode ser boa ou ruim, dependendo apenas do jeito que a gente usa.

Minha reflexão é muito baseada em mim e em quem está por perto. Muitos casos de saúde mental abalada por uma simples rede social. A decisão de dar esse tempo fora é justamente por entender que eu estava fazendo um uso raso, na minha opinião. Quis preservar essa energia que gastava lá pra entender de que forma quero usar esse tempo. Lembro que das outras vezes sentia uma falta absurda, meu dedo rolava automaticamente procurando o app. Dessa vez eu me sinto bem mais serena e colhendo situações que me deixam confortável e feliz de seguir esse experimento. E é enfim agora que chego no molho de tomate!

foto meramente ilustrativa pq o molho da minha amiga é mais lindo e comi tudo antes de tirar foto ❤

Peguei um Uber com a minha amiga, que também é minha colega de trabalho, e ela me falou “ah, sábado fiquei um tempão fazendo os molhos”. E eu não entendi muito bem, perguntei que molhos eram, como assim. Ela me disse “tu não viu no Instagram?”. Eu não tinha visto pq não estava mais lá e pedi pra ela me contar. Rolou uma ideia de fazer molhos de tomate orgânico e ela fez junto com o namorado. Fizeram muitos potinhos caseiros deliciosos pra vender. Eu ouvi toda a história com o brilho nos olhos dela, que estava feliz pela energia de ação. Ouvi detalhes sobre os potes, sobre a entrega, sobre como foi legal fazer isso com o namorado. Eu senti a alegria dela estampada ali na minha frente. Eu amei! Eu amei não saber antes de ouvir na voz dela, amei que tínhamos uma novidade pra conversar.

Quantas vezes a gente vai conversar com alguém e simplesmente já sabe tudo. “Ah sim, eu vi no Instagram”. Eu achei tão legal a sensação de não saber, de ter a oportunidade de sentir o que aquilo tudo representava. Eu fiquei tão feliz quando peguei um pote. Fiquei tão feliz ontem fazendo uma massa pra janta com o molhinho que a minha amiga carinhosamente fez. Eu me senti tão real em toda essa história.

Senti muita vontade de compartilhar isso tudo. Não me sinto especial por estar fazendo esse experimento. O comportamento da desconexão também é uma tendência mundial. Seria muito ingênuo da minha parte não observar que absolutamente tudo é reflexo de tantas outras variáveis. Mas independente, me sinto consciente nesse processo. Consciente de que até esse texto pode ser um recurso pra me sentir pertencente. De que amanhã posso baixar o app de novo. Não sei. Infinitas possibilidades.

O que considero importante mesmo é que estou fazendo o que acho melhor pra mim nesse momento. Uma decisão tão pequena e do dia a dia, que tem me trazido boas reflexões e situações, como o do molho de tomate. E é isso que tenho tentado me fixar em todas as situações da vida: o que faz sentido pra mim? O que faz sentido pra mim precisa fazer sentido pro outro? Pq eu julgo o outro quando ele não compartilha da mesma opinião que a minha?

Penso que é preciso reforçar dentro da gente o que tem significado. Limpar o campo pra enxergar com maior clareza o que realmente merece nossa atenção, energia e ação. Aqui, nesse caso, trago o Instagram como um item que foi limpado e a história do molho de tomate como a surpresa que a limpeza trouxe. Abrir espaço pra coisas simples acontecerem é muito mágico.

O que desejo, nesse momento, para as pessoas que amo é isso. Que elas possam se conectar cada vez mais com a consciência e agir em cima disso pra focar em coisas que querem dispensar a energia. Que a gente se permita, refletir e fazer os experimentos que julgar necessário, mesmo em coisas tão pequenas como apagar um app.

O que a gente pode fazer amanhã pra experimentar uma sensação nova?
O que tem sugado nossa energia?
O que está de lado esperando essa energia?
Eu tenho conseguido transformar as coisas que quero em ação?
A forma que que tenho vivido se conecta com o que sinto de verdade?
Pq eu faço o que faço?

O Instagram é só uma ponta de iceberg. As reflexões inacabadas são sobre SER. É uma provocação sobre estar atento aos sinais e se sentindo dono do próprio caminho, escolhendo o que parece fazer mais sentido no hoje.

Te convido a refletir e experimentar o que precisar pra colecionar aprendizados e novos caminhos pq estaremos sempre inacabados, em construção.