A Cultura do Estupro e a Função da Escola?

“( … uma adolescente que poderia ser nossa aluna, estuprada por homens que poderiam ser nossos alunos, exposta por outras milhares de pessoas que poderiam também ser nossos alunos. Não importa a matéria, a próxima aula precisa ser sobre gênero)”.

Desde quarta-feira, quando foi divulgado que uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens, uma onda de indignação varreu o país, ganhou destaque na mídia e nas redes sociais, gerou repercussão mundial e levou o poder público e pensar medidas mais sérias e urgentes.

Na escola, nós educadores estamos com os dois pés dentro desta polêmica.

E sendo assim, não podemos nos eximir do nosso dever e do nosso direito de abrir caminhos para o diálogo em sala de aula tirando as dúvidas dos nossos alunos. Apresentar leis e profissionais ligados à área, criar projetos e ações de esclarecimentos é uma estratégia fundamental por uma educação de formação ética. O mais desafiador é e será desconstruir (pré)conceitos e reconstruir valores morais nesta sociedade adoecida por uma avalanche de informações e anos de posturas machistas: meninos são estimulados para resolver problemas através da força e meninas através da delicadeza e submissão. Nossos alunos (as) precisam entender que a cultura do estupro não tem nada a ver com a idade, com as roupas que vestimos, com lugares onde frequentamos. Ela tem a ver com a impunidade e com a naturalização da violência contra a mulher.

· Só a cultura do estupro pode explicar um ator teatralizar um estupro em tv aberta sob aplausos e não ter qualquer sanção para o seu ato. (o vídeo, por si só já é uma aberração cognitiva!).

· Só a cultura do estupro permite que a sociedade brasileira continue a admitir as declarações criminosas de políticos sobre estupro em pleno Congresso Nacional, nas redes sociais, nos programas de TV e nas manifestações de rua.

É urgente a promoção de diálogos com os jovens. Na condição de mulher, pedagoga, diretora de escola, mãe de 3 filhos ( 2 meninas e 1 menino ), eu dirijo as escolas com centenas de meninos e meninas, homens e mulheres acreditando que precisamos discutir seriamente esse drama, e toda a violência que envolve esses fatos, para que todos entendam a emergencial necessidade de agirmos CONTRA a cultura do estupro.

Termino o texto com uma frase de um grande filósofo contemporâneo que inspira outra reflexão: “Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso”, Mario Sérgio Cortella.