A falácia do chamado “setembro amarelo”

Há 11 dias as redes sociais foram inundadas com mensagens de tom solidário e ornamentos amarelados, nas quais pessoas dizem compreender os problemas daqueles que se sentem incompreendidos, aceitar o outro com todos os seus infortúnios. Tais mensagens enaltecem a beleza interior da humanidade e afirmam com veemência, de forma muito genérica, o quanto essas pessoas são importantes. Disponibilizam os directs de seus interlocutores para conversas que são vendidas como um elixir da sanidade mental. Seria imensa grosseria de minha parte dizer que tudo isso está errado, mas afirmo com muita consciência naquilo que escrevo que isso não está certo.

Depressão, síndromes, transtornos e consequente suicídio em razão desses problemas existem a todo instante, todos os dias, todos os meses. O que vemos muito explicitamente é que fora dessa áurea setembrina, as pessoas simplesmente não se importam com o problema, com os dados, com as estatísticas e com o seu redor — adeptos fiéis e manifestos da religião “who cares?”. Trata-se, nitidamente, de uma generosidade cíclica e periódica, que à meia noite do dia 30 (trinta) dará lugar a tantos outros sentimentos em relação ao próximo — estes, bem menos amigáveis.

Na convivência com pessoas em momentos delicados da vida, sabe-se que uma das maiores dificuldades é o diálogo, franco e honesto. É difícil penetrar a intimidade de uma pessoa ferida pelo mundo. Na maioria dos casos de suicídio, nem mesmo familiares ou amigos próximos sequer notaram tendências suicidas. Da informação se pode auferir, muito rapidamente, que pessoas nessas condições não querem falar sobre seus problemas, tampouco com estranhos. Se o querem, não será por causa de um convite sugestivo, convidando-as a se assumirem com dificuldades psicológicas.

Outro aspecto desse cenário é que toda a preocupação dos adeptos dessa corrente solidária (e amarela) tem por destinatário pessoas abstratas, até então desconhecidas, que elas pretendem inundar de carinho e aceitação através de mensagens. Ocorre que, com indivíduos fisicamente próximos, a conversa muda de tom (e cor), por vezes somos incapazes de nos aquietarmos para reconhecer as dificuldades de pessoas próximas. Até quando faladas, de forma sonora, ou gritadas, silenciosamente. A nossa sensibilidade dá lugar ao pré conceito de achar que conhecemos o bastante a realidade do outro, inferindo solitária e autoritariamente que ele não precisa de ajuda: “Eu o conheço, saberia se o precisasse…”

O “Setembro Amarelo” mais que um outlet de ajuda a desconhecidos, ou outdoor para uma pseudo generosidade deveria ser um momento de reflexão interior e silenciosa: “o que eu faço para ajudar as pessoas?” “como eu lido com os problemas dos meus amigos e familiares?” “como eu reajo quando alguém me procura pra desabafar?” “sinto-me privilegiado em ser visto como um porto seguro ou me enraiveço por ser procurando somente nessas horas?” “se eu menosprezo os problemas de pessoas que digo amar, como vou ser complacente com pessoas que nunca conversei antes?”.

A ideia original é válida, mas arrisco dizer que a deturparam e romantizaram uma aflição que só quem sente é capaz de exprimir. A generosidade é linda, sim, creio que bem-quista por tudo aquilo que rege o Universo, mas na sua pureza e constância. Não deve ser gritada hipocritamente de forma anual e deixada de lado no trato diário.

A ajuda ofertada deve ser feita com consciência e seriedade, pois sobre esses que a oferecem recai uma imensurável responsabilidade pela vida humana. Não deve ser feita de forma descompromissada, a fim de delinear uma imagem social adorável, tampouco subsidiada por modismos virtuais, pois aqueles que assim fazem…

bom, talvez estes sejam os verdadeiros doentes.