Bela, Recatada e do Twerking
Minha primeira aula de Twerking, no Twerk das Minas.

A gente guarda culpa nos quadris, aprendi numa aula de yoga. Era fácil visualizar aquela tensão: na dificuldade de subir escadas, no alívio de curvar o corpo a frente com as pernas cruzadas. Tal informação permaneceu viva no corpo por anos, até aliar-se a minha compreensão política durante a última aula do Twerk das Minas, movimento encabeçado por meninas da USP que acontece desde Março no CRUSP.
Aqui não é hora para deixar a bunda dura, aconselhou a professora, deslumbrante, com olhos profundos demais para olhar lá dentro e batom marrom quase sangue antigo. Ela atrasou-se um pouco devido o vagar demorado do trem aos sábados. Apoiadas à parede de turquesa acanhado, empinamos os quadris sobre as pontas dos pés. As mãos seguravam o corpo apoiando-se contra a parede, que explicava através de um picho que o CRUSP NÃO ERA DADO. FORA PM. A carne chacoalhava sem controle, mental. Impressionante era a potencia do tremer.
Instantes antes, estávamos todas — exclusivamente todas, e nenhum deles — com as pernas abertas no chão, arrebitando a bunda e sofrendo com os sapatos apoiados sob os joelhos. Procurem o músculo além daquele que segura o pênis ou o dedo de alguém quando o movimento tá gostoso, democratizou a prof para que tanto as homos quanto a minoria hétero entendesse. Movimentos sobrenaturais das nádegas se manifestarem graças à súbita recordação de um músculo esquecido desde quando eu pré adolescente o apertava para rir da minha prima sem bunda. Seu poder de alavanca era espantoso. Pensávamos que tal poder era reservado a residentes do Olimpo pop como Rihanna e Beyoncé. A bunda subia e descia por si só, enquanto o quadril permanecia imóvel. As poupanças mexiam juntas, ou uma por vez, tal quadradinho de oito.
Faz tempo que o twist se juntou ao jerking. Mulheres rebolam a bunda repetidamente, desde antes de nos questionarmos se um tapinha realmente doía, de segurar o tchan ou descer na boquinha da garrafa. Africanas ocidentais — acredita-se que a origem do Twerking está na Mapouka, uma dança da Costa do Marfim — já faziam movimentos circulares intensos com os quadris, empinavam a bunda, desenhavam quadradinhos subindo e descendo isoladamente suas poupanças. Agachavam, levantavam, chacoalhavam a carne toda, deixando só os ossos em seu lugar.

Na hula e na dança do ventre, os movimentos rítmicos e complexos também eram performados em rituais numa espécie de transe. Em comum, essas práticas celebravam a fertilidade, mas também eram usadas para reduzir o risco de gravidez. Para essas mulheres, o corpo era seu aliado. E esses rituais ancenstrais, uma forma de repassar um precioso conhecimento de poder sobre o corpo umas às outras.
O termo Twerking foi cunhado em New Orleans, nos anos 90. Recentemente, mulheres têm se organizado em torno do twerking para construir uma mensagem em torno de ressignificação da sexualidade feminina, da autonomia do corpo e de valorização de rituais da cultura negra. O documentário Twerk it Girl, da bolsista da Universidade do Texas, Kimari Brand, conta como ela pratica o twerking para resistir a tentativas de domesticar a cultura negra e o corpo das mulheres ao que é bonito e aceitável para os padrões patriarcais brancos. Um outro vídeo que me introduziu a horizontes mais políticos do Twerking, para além do Work, Work da Rihanna (indiscutivelmente maravilhoso) e da quebração desengonçada da Miley Cyrus é o Cosmic Ass, da Fannie Sosa.
Como não pensar em Valescão e Tati Quebra Barraco, com seus raivosos gritos de libertação de homens escrotos? Agora eu virei puta. E a geração tombamento da Carol com Ka? Quebração com sua própria estética para resistir, para libertar o corpo.
Quem segue as minas do Twerk no Facebook, espera ansiosamente pela próxima aula. As gays suplicam para entrar.. Na aula em que participei, montamos uma coreografia. Depois, as minas combinaram de ir para a BateKoo, na Funarte.
Eu tive que voltar pra casa, mas sem culpa nos quadris.