Pornô: um curso livre.

Foto: Aline Fantinatti

Cheguei atrasada à sala do Núcleo Porta Preta, onde os outros oito caras do áudio visual já haviam apresentado seus porquês de estarem ali. Marco Cidade, idealizador do Workshop: “Cinema Pôrno: Direção,Produção e Veiculação” já introduzia o conteúdo do curso. Esbafori aos colegas minha indagação sobre a possibilidade de produzirmos uma pornografia que instigasse os sentidos e construísse outros olhares alternativos ao machismo.

Cidade nos conduziu por uma viagem às principais referências do pornô brasileiro. Relembrei alguns ícones do meu imaginário masturbatório como a lendária e ex gigante produtora Brasileirinha — que brilhou durante os anos dourados da indústria na década de noventa — até iniciativas mais atuais e com propostas supostamente diferenciadas, como o pornô feminista da Érika Lust. Ele também mostrou grandes nomes por mim desconhecidos — e por meus colegas ovacionados, como TED, o Terror das Empregadas Domésticas — e outras musas pornô saudadas com muito louvor pelos os fãs que se encontravam na sala.

Ao falar de cada uma das referências, o professor comentava a proposta conceitual e as características técnicas que davam o tom a cada um daqueles diretores. Luz estourada, plano americano, plano fechado: minha primeira aula de cinema.

E também tratamos de business: fazer pornô no Brasil é fazer milagre. O parcos canais de distribuição pagam uma quantia irrisória por filmes que devem seguir rígidos padrões de duração e roteiro. Quer dizer, quem paga diz o quê e em que momento deve aparecer. Peitinhos nos primeiros cinco minutos, masturbação no décimo, penetração no décimo quinto. Os diretores se viram para construir conteúdo inovador. É a grana nos dizendo como transar.

A indústria ainda é marginalizada e não recebe incentivo algum. A pornografia, na minha opinião a mais acessível instituição de educação sexual, não tem acesso a nenhum edital de recursos de incentivo à cultura, nem pontua as produções pela qualidade de imagem e roteiro. O pornô brasileiro é feito na raça, mas raça não segura pênis ereto, nem paga diária de equipamentos. Os diretores muitas vezes preferem trabalhar com atores que topam um viagra para estar em cena. Os limitados recursos não impedem que haja um clima amistoso e um cuidado com os atores: higiene, saúde sexual, e privacidade compõem a preparação de uma cena.

O profissionalismo e o respeito da galera que dava o curso se confirmou com a chegada das atrizes que protagonizariam a cena que filmamos na parte prática. Jully DeLarge e Grazie Borges fazem parte de um grupo de performers alt porn com padrões diferentes aos da indústria mainstream. Uma colorida estética punk rock de tatuagens, piercings, cabelos raspados e hipnotizantes traços de delineador. Simpáticas, se entusiasmaram com a presença de uma aluna no curso e me convidaram para figurar com a voz nas cenas introdutórias.

Durante as preparações para a cena, elas me contaram suas histórias e como chegaram ao pornô. Drama? Falta de escolha? Não. No caso delas, apenas a indiferente constatação de que aquilo era só trabalho. Um trabalho encarado como qualquer outro. Assim como traduções e planilhas me aborrecem, esperar horas para entrar em cena também as entedia. Engulo muito sapo e produzo trabalhos inúteis graças aos pedidos do meu chefe corporate-esquizofrênico. Elas ainda podem escolher o que fazer ou não. Jully aceita contracenar com um homem; Grazie, premiada como atriz revelação LGBT em 2016 pelo Sexy Hot, prefere não fazê-lo. As duas participam de produções BDSM como fisting e farting. BDSM: Amarração e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo. Palavreado opressor, mas, no caso delas, uma relação muito mais livre com o corpo e com sua sexualidade.

Todo o roteiro proposto pelo diretor foi revisto pelas atrizes, que trouxeram sugestões alternativas a pontos com os quais não sentiam-se confortáveis. Todas exigências acatadas pelo diretor. Eu quis tirar uma dúvida. Então a cena mostraria duas profissionais conversando e de repente rolaria um clima entre elas? Não. Essa coisa de teste de sofá só reproduz estereótipos. A cena seria entre duas profissionais do pornô que estavam ali para fazer aquilo mesmo, sem que uma explorasse a posição inferior da outra. Toma essa.

E a cena. A cena foi outra surpresa. Os elementos decorativos punk que não me agradavam no início compuseram um aconchegante cenário, onde as cores harmonizavam com as peles coloridas das atrizes. A luz que aprisionamos às pressas naquele fim de tarde acariciava o ombro de uma, enquanto uma luz quentinha, de dentro da sala, dourava o dragão tatuado nas costas da outra. A tatuagens ganhavam vida ao rebolarem uma na outra.

Um vácuo silencioso se estabeleceu enquanto a cena rolava, sem intervenções. Fiquei perplexa com tamanha sensualidade acontecendo diante dos meus olhos e dos de tantos outros marmanjos com seus respectivos equipamentos. E sem agora pega no peitinho dela, agora empina a bundinha. Aquilo era liberdade e coragem para expressar-se num mundo de generalizações que trilham caminhos ao preconceito.