EuroLeads 2018 e o “jeitinho brasileiro”

Resolvi escrever, durante minha viagem de volta para casa (que durou, aliás, 12 horas #LowCostLifestyle) alguns dos meus insights sobre o evento de sábado. Tive a incrível oportunidade de participar do Euroleads 2018, a maior conferência de estudantes brasileiros na Europa. Que dia! Para nós, intercambistas, que atravessamos o Oceano Atlântico em busca de alguns sonhos, encontrar aproximadamente 400 brasileiros em um evento é, utilizando eufemismo: BOM DEMAIS. É aquele calor, no meio do outono mais frio da minha vida, que só o nosso povo tem. Além disso, tomar café ao lado do Dr. Drauzio Varella não foi nada mal (do francês « pas mal ! »). E como vimos que o brasileiro tem o dom da palavra, com um dos idiomas mais lindos do mundo, vou dividir esses insights em três classificações:

1. Um verbo: ressignificar — verbo transitivo que caracteriza a ação de atribuir um novo significado a algo ou alguém — .O evento começou provocativo, deixando clara a questão dos privilégios ali. Grande maioria branca, nunca passou fome e está na Europa. Uma amostra representativa do país? Não. Mas o fato de lembrar disso, o fato de aceitar o quão privilegiados somos já é um começo, já é diferente. O evento trouxe a proposta de ressignificar o “jeitinho brasileiro”. Lembramos do nosso idioma, que tem uma particularidade: a diferença entre ser e estar. Isso é lindo! Porque nos traz a ideia de que as coisas não são do jeito que são, elas podem mudar, elas devem mudar. A efemeridade das situações nos traz esperança. Rick Chester, um dos (melhores) palestrantes, há sete meses atrás estava vendendo água nas areias de Copacabana. Entende o poder disso? Recomendo a todos que pesquisem sobre a história desse cara, é realmente inspiradora. Ele criticou, acima de tudo, o vitimismo do povo. E ele pode, o cara perdeu a mãe quando tinha 7 anos e trabalhou muito correndo atrás do pão de cada dia. Uma mensagem que ele deixou foi mais ou menos assim: “as suas vitórias ou derrotas são todas mérito ou culpa sua. Não adianta culpar alguém, você é inteiramente responsável por tudo que está colhendo. Você não é do tamanho dos seus sonhos, você é do tamanho da sua disposição para realizá-los”. Que a gente consiga extrair sempre o melhor do — mundialmente conhecido — jeitinho brasileiro.

2. Um adjetivo: empreendedor (poderia ser um substantivo, mas nesse caso gostaria de enquadrar como uma qualidade mesmo). A frase inicial do Eduardo Valladares é a que todo empreendedor quer, ao final da jornada, poder dizer : ainda bem que eu segui as batidas do meu próprio coração. E é quando você encontra sua razão para viver (Ikigai — conceito japonês), é quando você enxerga a intersecção entre a sua missão, paixão, profissão e vocação que o negócio sai bem feito. Um exemplo (do caralho! Com o perdão da palavra) é a startup BlackRocks , que promove a diversidade racial no ecossistema de startups brasileiro, apoiando profissionais negras e negros. Ainda é comum associar as palavras “empreendedorismo” e “startup” a um homem branco, de classe média alta. A BlackRocks tá aí para mudar esse cenário. Eu já falei o quão incrível foi esse evento? Pois então. Deu pra aprender muito mais sobre liderança. Líder é um exemplo a ser seguido. Ser exemplo é muito mais fácil quando você faz o que gosta, o que te faz se sentir vivo. Não tem saída, tem que seguir as batidas do próprio coração (e trabalhar muito). Pare de procurar o que o mundo precisa e comece a procurar o que te faz se sentir vivo. “75% das maiores empresas de 2020 não existiam em 2010”, a apresentação do Guilherme Junqueira, o CEO da Gama Academy, nos trouxe algumas importantes reflexões sobre esse mundo do empreendedorismo brasileiro: o profissional precisa estar preparado para inovar, precisa ser um fast-learner, flexível e trabalhar suas softskills.

3. Um substantivo: vulnerabilidade. “Você pode ser contratado por hardskills, mas será demitido por softskills. Ser vulnerável é dizer que não sabe de tudo, é querer aprender com o outro, é antes de mais nada: se conhecer. 20% é talento e o resto é relacionamento. Mas tenta se relacionar sem ser minimamente vulnerável e você não sairá da superfície. Quando você combina autoconhecimento com vulnerabilidade o resultado é: potencial. A primeira etapa para empreender é conhecer seu próprio perfil. O que eu gosto? O que me faz sentir vivo? Do que tenho medo? E por aí vai. A segunda etapa é encontrar pessoas que te complementem (olha aí o relacionamento de novo) e a terceira é trabalhar mesmo, hands on. Um exercício proposto foi o seguinte: pergunte para três pessoas que te conhecem bem (evitar escolher pessoas que teriam medo de lhe passar reais feedbacks) “que tipo de problema você me chamaria para te ajudar a resolver?” E “que tipo de problema eu não saberia te ajudar a resolver?”. Outro exercício nada fácil, porém simples: converse consigo mesmo e faça uma lista sobre tudo o que você faria se não tivesse medo.

Teve muito palestrante incrível. Teve muita empresa querendo contratar brasileiro. Teve workshop (gratidão, Loggi!). Ao final do dia, cansados, mas com brilho no olho e vontade de fazer mais e melhor, fomos para uma festa juntos. Porque o brasileiro sem festa não é brasileiro. “Quanto mais ferrado você está, melhor é o carnaval”.

Gratidão, BRASA, vocês são demais! Gratidão, Euroleads 2018. O brasileiro é incrível. Matei um pouquinho da saudade do meu país e fiquei com vontade de seguir as batidas do meu próprio coração.

Food engineering student. I currently live on an island in Brazil (but I’ve lived in France for a year). I’ve been studying a lot about hemp lately.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store