sobre aprender a amar a si mesma

tem uma tendência do movimento feminista contemporâneo que eu acho falaciosa — aquela coisa do “você tem de se amar, senão ninguém vai saber te amar”. pra mim, ela é da mesma origem do “você tem de se valorizar”, essa sim, já vista com desconfiança pelas feministas porque costuma ser usada como desculpa pra culpar as mulheres pelo que lhes acontece no mundo patriarcal.

nós não nascemos sabendo o que é amor. com o tempo, aprendemos que aqueles sorrisos, aqueles cuidados, aquelas ligações no meio da noite, aquelas companhias para ir ao médico, aquelas reprimendas genuinamente preocupadas com o nosso bem-estar são o que as pessoas chamam de “amor”. mas “amor” não é uma categoria universal — tem gente que vai aprender que carinho e sorrisos são amor, tem gente que vai aprender que “mulher minha não sai com saia desse tamanho” é amor, porque assim as pessoas ao seu redor lhe ensinaram.

se você está rodeada de gente que lhe diz que domínio é amor, esforço pra agradar homem é amor, você tem uma chance bem grande de não conseguir “se amar”. se você está rodeada de pessoas legais, que gostem de você do jeito que você é — e demonstrem isso elogiando, brincando, apoiando você — você tem um modelo bem mais saudável do que é “amar a você mesma”.

em última análise, sim, saber amar depende de ser amada por outras pessoas. somos seres sociais e ninguém aprende o que é amor sozinha. saber disso não quer dizer que você não pode fazer nada se o mundo é cuzão com você — quer dizer que você pode se colocar em posição de aprender com modelos bem melhores. se eu continuo com aquele namoradinho bosta que nunca me elogia pois “é do amor livre” e elogiar é coisa de monogâmico, eu não vou aprender lhufas sobre o que é legal em mim. se eu continuo dando ouvidos àquelas amigas críticas que só falam das falhas na sobrancelha e dos quilos que engordei, também não.

o movimento feminista é um contexto que vai favorecer um amor por si que a gente não sabe, no mundão, que é possível ter. um monte de mina se amando mesmo fora dos padrões é que nos ensina sobre amor. a internalização disso tudo vai vir depois. mas não vem no vácuo. não vem sozinha.

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