Sobre tomar remédios psiquiátricos

Chemicals por Ashley Mackenzie

Uma amiga me procurou tem uns dias pra saber se estou tomando o mesmo antipsicótico que a psiquiatra receitou pra ela. Eu disse que sim, na mesma dosagem inclusive. Ela quis saber sobre os efeitos colaterais, porque quando leu a bula viu que o efeito mais comum é o aumento de peso e ela não quer engordar nada. Aliás, ela já não tem uma relação saudável com o próprio corpo e ganhar o peso que for está fora de cogitação. Conversei com ela e decidi escrever sobre essa questão que vejo que atormenta muitas pessoas que começam um tratamento psiquiátrico.

Eu tomo o mesmo antidepressivo desde 2007 e somente esse ano eu saí da dose mínima para a máxima. É claro que tive medo dessa mudança, mas ainda foi um terreno seguro pois eu já estava acostumada a essa droga. Lidar com os efeitos colaterais de um medicamento psiquiátrico é tão aterrorizante quanto pensar em continuar tendo crises e é por isso que dá tanto medo. Com o antidepressivo aumentado eu tive insônia, contratura de todos os músculos do corpo, prisão de ventre e outros efeitos, porém, em poucos dias eu percebi que estava conseguindo segurar as pontas e evitando os surtos.

Como eu disse no post anterior, eu coloquei que o surto número 1 foi meu primeiro surto psicótico. Mas na verdade eu tenho tido surtos menores e não tão graves há mais de uma década. Eles se tornaram cada vez menos espaçados e cada vez mais intensos e perigosos com o passar dos anos. Aliás, lembro do meu primeiro surto com automutilação que foi em 2007, logo após a morte da minha avó, e foi por causa dele que me consultei a primeira vez com a minha psiquiatra.

Mas medicamentos psiquiátricos são tabu. Aliás, a psiquiatria no seu total é um tabu. Alguém que se consulta com um psiquiatra é vista por muitos como louca e, uma vez louca, se torna quase como um leproso ou incapaz. Sem falar do medo abissal em pensar na possibilidade de que você vai ter que tomar drogas lícitas pro resto da vida para conseguir sobreviver. Não há uma só pessoa que não fica com esse receio e muitas vezes nem se consultam com um psiquiatra pra nem dar chance disso acontecer.

Por isso é tão difícil tomar remédios. Só que isso é uma armadilha difícil de escapar. A pessoa acaba entrando numa bola de neve. Por não querer ser taxada como inválida socialmente não toma seus remédios ou toma de maneira descompromissada e, naturalmente, o seu estado mental não melhora ou até mesmo piora, pois a frustração e sensação de falha aumenta. Falar sobre o que está acontecendo se torna mais difícil e doloroso, porque agora tem que adicionar o fato do relapso com os remédios e a angústia se torna cada vez maior dominando a mente quase que integralmente.

Public Brains por Ashley Mackenzie

Confiar nas pessoas responsáveis pelo seu tratamento é crucial, pois só assim é possível mergulhar no que é receitado e proposto. Do contrário não existe análise, terapia, meditação ou religião que te ajude. Sem confiança não existe diálogo aberto e não é possível pro terapeuta fazer um diagnóstico correto e passar o tratamento adequado.

E não precisa pressionar ou apressar essa situação. A cada visita minha à psiquiatra eu consigo descrever melhor como eu me sinto e como tem sido meus surtos. O surto número 1 me fez revelar que tenho me machucado e daí alterações foram feitas nas dosagens e o antipsicótico foi adicionado. E foi graças ao antipsicótico que consegui reorganizar meus pensamentos e consegui reconquistar meu poder de fala e escrita, fazendo o meu tratamento na análise ser mais proveitoso e até mesmo me dando autoconfiança para criar um blog para falar do assunto.

Eu fiquei apavorada com a possibilidade de ganhar peso com ele, mas foi exatamente por esse pavor que se tornou óbvia a urgência de que também preciso expor meu transtorno alimentar que venho escondendo e não admitindo, porque cogitar não tomar um remédio para não engordar, sendo que eu venho me machucando regularmente, só demonstra o quanto estou doente. Macular o próprio corpo é um sintoma grave que pode levar à zona do suicídio. E foi isso o que pesei quando tomei o primeiro comprimido. Preferi assumir o risco de talvez engordar a continuar me odiando a ponto de me agredir fisicamente ou pensar em acabar com tudo de uma vez. E após sentir que reconquistei meu poder de fala, desbloqueei memórias e abri meus traumas fazendo com que meu autoconhecimento se aprofundasse. Isso dói muito e muitas vezes saio da análise em estado catatônico ou em choque, mas eu me sinto cada vez mais conectada comigo mesma.

Quando me perguntam se estou melhor eu respondo que devo estar, porque estou me respeitando mais. Respeito mais meus machucados, minhas dores e meus surtos. Respeito mais os meus limites e as minhas dificuldades. Agora eu encaro meus transtornos como eu encararia uma doença autoimune ou diabetes, onde sem remédios e sem concernir o que me acomete eu posso ter graves complicações. Eu não respondo que estou melhor, porque na verdade eu ainda não me sinto bem. Ainda não me sinto confortável na minha pele. Ainda me sinto aterrorizada com o fato de que preciso de medicamentos controlados para conseguir viver em sociedade. Mas agora eu aceito e respeito isso.

E posso garantir que me sinto mais leve por saber que estou deixando todas as minhas personalidades, ainda desconexas, serem o que elas são. Cada dia é um passo dado e alguns dias parecem que voltei mais de um passo, mas de alguma maneira sinto que somente agora estou caminhando para algum lugar.

Filling in the Gaps por Ashley Mackenzie