Meus dois centavos sobre Yuri!!! on Ice

Aproveitando o ensejo da polêmica do Anime Awards, vou dar meus dois centavos sobre Yuri!!! On Ice. Eu adorei o anime, mas vou discorrer principalmente do que eu não gostei da série, então caso você não esteja a fim de ler críticas dela, agora é a hora de dar Ctrl+W na aba.

Então vamos falar do centro da polêmica: animação. Falar que “a animação de YoI é horrível” é uma mentira. Ela tem seus bons momentos, sim, principalmente nos momentos mais “slice of life”. Agora, quando chega no rinque, minha nossa senhora! E não vou falar dos “in-between frames”. Arrisco dizer que eles sejam o menor dos problemas nessa questão.

O principal problema visualmente que vejo nessas cenas é que não há noção nenhuma de peso em relação ao gelo (exceto em closes rápidos). A impressão é que os caras estão patinando flutuando no ar e, por acaso, tem uma pista de gelo levemente abaixo da lâmina dos patins deles. Esse defeito ocorre, inclusive, em alguns momentos do programa mais bem animado da série:

https://youtu.be/WewsgJewJfw?t=13m29s

E outra coisa que atrapalhou demais a minha experiência foi a desconexão do patinador com o background. Uma falta de profundidade, ou talvez uma certa falha ao passar essa noção de profundidade, como vemos abaixo:

https://youtu.be/WewsgJewJfw?t=14m37s

Pelo posicionamento do background, Yuri cruzou de um lado pra outro do rinque (do jeito “mais curto”), mas o movimento dele não parece condizer com todo esse deslocamento. De novo, a falta de peso agrava essa situação.

Considerando outras animações com cenas de patinação no gelo que já vi (Death Parade e Endless Night https://www.youtube.com/watch?v=w6Uj2a_Ehy0 ), tudo me leva a crer que dar essa noção de peso deve ser algo difícil de se fazer, pois nenhuma convence plenamente nesse quesito. Agora, se YoI falha isso no seu programa mais bem feito, nos demais chega a ser uma fonte de distração da ação em si. Teve algum episódio que, pelo movimento do personagem, ele devia ir para a direita, mas pela movimentação de fundo, ele teoricamente estava indo para a esquerda, o que gerou praticamente um tilt no cérebro.

Pois bem, e como isso podia ser melhorado? Aqui são algumas conjecturas minhas, mas acredito que usar motion capture e 3D poderia ser uma opção mais interessante para o anime.

“Rotoscopia” e motion capture

Vamos lá. Afinal, como o estúdio animou os programas afinal de contas? Não foi rotoscopia propriamente dita, mas a ideia por trás dela foi o ponto central. Basicamente eles filmaram um patinador fazendo os programas, a sala de edição fez uma montagem para o programa em questão, e os animadores “desenharam por cima”. (Não foi só isso que foi feito, mas a ideia central do processo foi essa. Repito, TEM MAIS COISA AÍ NO MEIO!)

Já no motion capture, ou mocap, são colocados vários sensores no corpo do modelo, no caso, do patinador, e cada sensor emite sinais que depois podem ser aplicados num modelo 3D. No caso, haveria um modelo para cada patinador, que precisariam ser muito bem feitos para terem resultados satisfatórios. O que seria legal, caso tivessem feito mocap, é que poderiam incluir especiais no DVD com os personagens dançando programas dos outros sem grandes custos adicionais.

Eu sei que entre os otaku há muito preconceito contra 3D, muitas vezes baseado em históricos tenebrosos. Eu digo que gostaria disso como fã, mas, sinceramente, se eu fosse uma figurona da MAPPA, não sei se aprovaria.

Mas enfim, por que eu acho que mocap podia ter sido uma alternativa melhor? Porque já temos exemplos de movimentações com nível de dificuldade similar ao da patinação sendo bem feitos. Um exemplo é UtaPri. Na última temporada, foram usados modelos 3D (embora eu não saiba dizer se com mocap ou não). Ainda tem um certo ranço daqueles 3D que a gente não gosta? Tem! Mas num nível aceitável na minha concepção. Outro grande exemplo que dou é Tribe Cool Crew, um anime infantil super lindinho e fofo de 2014 focado em danças urbanas. E episódio sim, episódio não, tinha alguma cena de dança feita com mocap. Aqui podemos ver o processo de gravação:

https://www.youtube.com/watch?v=LlHUyXmzEcs

E aqui segue um exemplo in-anime do maior motivo pelo qual eu acho que YoI teria se beneficiado muito de mocap:

https://www.youtube.com/watch?v=07qL4wnCMZA

Movimentação de câmera! Com os modelos no 3D, é possível fazer o diabo com a câmera, o que dá ao diretor uma ferramenta inestimável para mudar o tom da cena, para passar mais emoção, para enfatizar o que se quer enfatizar. Na “rostosopia”, se fica preso ao que a câmera gravou, como podemos ver em Eros, um dos programais mais bem animados da série:

https://youtu.be/JaMkqaPkSvU?t=18m

Logo no começo do programa o Yuri fica um tempão “decepado” na tela, e acredito que seja por conta dessa limitação. De resto, quase sempre vemos os patinadores na mesma distância da câmera, mesmos planos, mesmos tudos, com exceção de um close ou outro nos pés e, mais raramente, nas mãos.

De novo, não sei se eu estivesse em posição de tomada de decisão na MAPPA eu pensaria da mesma forma, pensando na aceitação das fãs, mas não sou executiva, então vou reclamar!

E depois de tanto falar sobre qual técnica utilizar na animação dos programas, a verdadeira questão era se isso era realmente necessário.

Não estou dizendo para não mostrar nada, mas com uma exceção ou outra, os passos quase não influenciavam a narrativa. e em vez de se preocupar tanto em traduzir os programas inteiros em animação, o uso de tomadas focando mais no artístico, na expressão dos patinadores, teria um valor narrativo muito mais relevante. E o uso de tomadas estáticas, ou quase estáticas poderia transmitir essas emoções muito melhor do que mostrar o programa o tempo todo em tomada aberta.

E usar tomadas estáticas não é coisa ruim, se for bem planejada e executada. A cena do bloqueio do Tsukishima contra o Ushiwaka é bem simples em termos de “custo de animação”, mas foi bem pensada e funciona:

https://youtu.be/nRxWbbHFXG8?t=12s

A partir do momento que o Tsukishima começa a pensar até o bloqueio propriamente dito, perceba que as tomadas tiveram o mínimo necessário de animação. Inclusive, o efeito do bloqueio se dá justamente por duas imagens totalmente estáticas! Acho que faltou para YoI esse planejamento. Pensar: “O que eu quero com esse programa e qual é a forma mais eficiente de se conseguir esse efeito?”

Em vez disso, a impressão é que entraram no automático de que “tem que animar todo o programa como se fosse a competição real passando para TV”. E isso só daria certo se eles tivessem orçamento e dinheiro infinitos para fazer aquela animação de encher os olhos. Mas o objetivo não era ser bonito, os programas estão inseridos numa história maior e a ela deviam servir, ou mal aparecer.

Direção / Planejamento / Roteiro

Já queimei largada, mas isso me leva ao fato de que o maior problema de animação de YoI acabou sendo, na verdade, a direção/planejamento. Enfatizo aqui que me refiro às cenas de patinação.

Como não houve movimento de câmera, a direção não tinha muito o que fazer a esse respeito, mas podiam ter intercalado mais com a reação do público, do técnico, dos demais patinadores. É isso que cria expectativa no espectador (manja as aliterações) e dá aquela tensão de saber se o salto vai dar certo ou não. Ou seja faltou, talvez, um storyboard mais bem pensado dos programas.

Ou talvez antes mesmo do storyboard, faltou um roteiro mais bem pensado a esse respeito. Como eu disse acima, as cenas de um filme ou série têm que servir algum propósito, elas não existem por existir pura e simplesmente. Yuri está patinando depois que conquistou o “eros”? O que queremos mostrar? Começar com tomadas abertas e ir se aproximando dando uma sensação crescente de intimidade?

Agora o Yuri está focado demais nos aspectos técnicos e está deixando o artístico de lado. Como podemos mostrar isso, em vez de contar? Começar com tomadas mais fechadas e ir abrindo, em contraste com a noção crescente de intimidade do outro? Um leve slow motion nos elementos técnicos, talvez? Um close dele com a expressão mais de “cenho enrugado”?

E isso vale para os demais também. O Georgi está patinando? O que queremos passar com a cena? A dor do coração partido? Qual é a forma mais econômica e eficaz para transmitir isso? Tomadas de corpo inteiro? Close na expressão facial? Foco no gestual das mãos? No jogo de pés? Na Anya no público?

Os flashbacks no meio dos programas na maioria das vezes funcionavam bem quanto a isso, mas na patinação propriamente dita se voltava ao modo “temos que mostrar todos os programas porque é assim que é e ponto final”.

Mais um pontinho sobre o roteiro, acho que faltou para a Final do Grand Prix em YoI ter “algo em jogo”, ou “stakes”, como dizem em inglês. Durante a série do Grand Prix, estava em jogo a participação do Yuri na final. Agora na final, o que estava em jogo? Ele estava determinado a parar de patinar ganhando o ouro ou não, então para nós, espectadores, não havia nada ali motivando fora a vontade de ganhar por ganhar. Embora eu entenda que isso faz muito parte da construção da personagem do Yuri, como narrativa, seria interessante que houvesse algo. O quê? Menor ideia.

Comentarista

Uma coisa que me irritou demais foi o comentarista dos programas (até porque me irrita comentários DURANTE a apresentação na vida real. Graças a Deus aqui no Brasil eles deixam os comentários só pro final).

De novo, parece que entraram no automático de “é assim que se transmite na TV, então é assim que vamos fazer”, sendo que, narrativamente, o comentarista não acrescentou nada. Ou melhor, ele foi feito justamente para contar (tell) o que não se conseguiu mostrar (show).

Para que nós, espectadores, soubéssemos o que está acontecendo no programa, podiam ter usado os técnicos para pensar os comentários: “Hoje o Yuri se afobou no Salchow quádruplo.” E coisas do tipo.

Figurinos

Antes de terminar, só um leve comentário sobre os figurinos. Sei que houve grande esmero para fazer os figurinos dos personagens. Acontece que o que é bonito na vida real não necessariamente vira algo bom para ser animado, pelo contrário. Quanto mais simples, melhor. De novo, se eu fosse da MAPPA e pensasse nas fãs, não sei se concordaria com o que vou falar, mas acredito que simplificar teria sido bem mais interessante para melhorar a animação como um todo. Focar em detalhes que diferenciem os figurinos. Um que adorei foi o “foguinho” nos patins do Yurio. Acredito não ser algo muito difícil de colocar, mas diferencia o figurino tremendamente. Já o figurino de Agape é cheio de detalhes… mas que não diferenciam, necessariamente. Mas enfim, figurino em animação é um ponto no qual não manjo nada, então estou só tagarelando.

Ou seja

Basicamente, o grande problema de YoI para as cenas de patinação foi não saber definir seu escopo. Quiseram fazer figurinos lindos, mostrar todas as coreografias sem saber direito a que propósito e não tendo condições de fazer algo de qualidade condizente com a grandiosidade pretendida.

E eu fico triste e faço esse rant porque queria demais que fosse algo bacana. Minha mãe é apaixonada por patinação há 30 anos ou mais. Queria pegar o anime e mostrar para ela, que ela se empolgasse com os detalhes aqui e ali, mas nem me animei a mostrar do jeito que as cenas de patinação estão.

Espero demais que o sucesso nas vendas faça com que a segunda temporada seja mais caprichada, feita com menos afobamento. Ficamos na torcida!