Maneiras

“Se eu quiser fumar eu fumo
Se eu quiser beber eu bebo
Pago tudo o que eu consumo
Com o suor do meu emprego"

Cresci ouvindo esse refrão nas rodas que se formavam no quintal do vô, em fins de festas, quando o álcool já estava batendo alto. Gostava, principalmente, da ideia de liberdade que ela passava. Deveria ter desconfiado, na roda nunca cantava mulher, mas os homens enchiam a boca para entoar o hino, então tá.
Fumo, bebo, tenho dois empregos, pago cada gota de cerveja e uísque, barato ou de qualidade, que bebo, sou respeitada nos bares que chego e nao cuido da vida de ninguém além da minha.
Isso me fez virar a ovelha negra da família, talvez por nao ter um par de bolas entre as pernas, talvez por sempre estar na roda batucando algum balde do quintal, talvez porque mulheres nao vivem o samba em família, nao na minha.
Chegava em casa escondendo isqueiro, engolindo pasta de dente e andando em linha reta, chegar em casa bebum e pomba gira nem pensar. Tinha que fazer sala, fixar o pensamento, cortar a brisa, largar a erva na calçada. Sorrir falso, nao me trancar no quarto de pronto, forçar a memória cheia como tanque de carro movido a álcool, para esconder cada vestígio pequeno que fosse de vida. E isso lá era vida pra alguém?
Pra eles era.
Mas, se fosse eu o caçula, nao teria problemas, homem pode ter seu dia de Maneiras, ou todos os dias, achariam lindo como eu acho minha voz ao som de Cabide com um copo sujo de batom vermelho quase cheio na mão e rodando, rodando, rindo e vivendo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.