Maria, quando criança, era uma escrevista. Algum indivíduo pode se confundir e achar que ela queria dizer escritora. Não. Escrevista era a palavra exata. Aquela pessoa que se expressa através da literatura. O que aconteceu é que, no ensino médio, ela deixou de ser, assim como as palavras das crianças foram encaixotadas com a uniformidade do dicionário. Maria se contava, passava os dias se contando, em longas narrativas. Achava que esquecíamos das coisas se não tivéssemos a quem contá-las. O cheiro, a cor, o sabor da comida onde ela escondia as palavras despertavam seus sentidos e a socorria da repetição. Ela era capaz de enxergar a delicadeza, as infinitas pequenas mudanças, a eterna novidade do mundo de que falava Fernando Pessoa, aquele que precisou de pelo menos três heterônimos para dar conta de si. De repente, Maria descobriu-se coberta pelo véu enganador da rotina. Ela é outra. Vive de espasmo em espasmo nesse mundo de acontecimentos. Vive em um tempo que ninguém tem tempo para ter tempo. Os adultos são todos o coelho branco, de Alice no País das maravilhas: “ai, ai, meu Deus, alô, adeus, é tarde, tarde é tarde. Não, não, não, eu tenho pressa, pressa…” Maria é uma contadora de números que não contam sentimentos. A escritora, quando criança, não acreditava na uniformidade do dicionário.

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