O nosso

“Hoje eu cozinho pra você”, disse, sorrindo timidamente, como quem sabe que sua comida não é a melhor do mundo. Desse sorriso derivou-se um carinho na nuca, sua forma de dizer para eu não me preocupar, ele não ia queimar a cozinha.

Frigideira no fogão, manteiga, colher, mão, riso, algum assunto de que não me lembro. Não prestei atenção nos ingredientes — nenhum deles, é verdade. Lembro da sua voz grave dizendo palavras, do seu cabelo bagunçado de sono, da sua roupa descombinada. Talvez você tenha dito algo sobre seu trabalho. Confesso: não me lembro. Talvez fosse importante, quem sabe? Talvez…

Talvez eu tenha entendido o que se passava depois, ao repassar aquela noite antes de dormir. Não prestei atenção nas suas palavras. Não. Sinto muito por isso. Estava concentrada nas minhas próprias — ainda sem vida, tímidas, mudas. Elas se formavam aos poucos, pequenas, perdidas entre outras tantas. Não tinham cores, formas, nomes. Impuras e tão, tão puras, falavam, calmamente, de amor. Do nosso.

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